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SEMEADURA INCORRETA JOGA POR TERRA A PRODUÇÃO DA LAVOURA

Rafael Achilles Marcelino

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

O bom produto agrícola é resultado de uma boa implantação de lavoura. Uma harmoniosa interação entre o solo, clima, insumos, tecnologias e práticas de manejo é resultado de vários fatores operacionais. Em meio à complexidade de um sistema operacional de produção, a semeadura é uma etapa determinante, que requer adequação para gerar reflexos na qualidade do produto final.

As falhas ou defeitos operacionais aparecem em lavouras onde não foi considerado o valor de cada etapa da implantação. Vários exemplos podem ser apontados de maneira objetiva, como é o caso da falta de lubrificação de componentes, que promove o travamento e gera falhas; a mistura de sementes com fertilizantes, que provoca uma distribuição incorreta e prejudica a germinação. Esses fatores afetam diretamente a eficiência das plantas e, consequentemente, a produtividade (figura 1).

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Figura 1 – A regulagem da máquina é muito importante para uma semeadura de qualidade

Problemas como esses podem ser evitados pelo acesso à informação gerada por trabalhos de pesquisa. O Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, por meio do Centro de Engenharia e Automação (CEA), desenvolve ações de pesquisa e transferência de tecnologia em diversas áreas da mecanização agrícola. Com relação à semeadura, o CEA/ IAC desenvolve uma linha de pesquisa voltada para estudos da qualidade operacional.

Segundo Afonso Peche Filho, pesquisador do IAC, Instituto da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, os estudos são focados em culturas de verão como soja, milho, algodão, feijão e girassol e de inverno, como trigo, aveia e outras plantas de cobertura. A tecnologia gerada se aplica a pequenas e grandes propriedades e pode beneficiar praticamente todas as regiões produtoras de grãos do Brasil.

Lavouras com falhas perdem a competitividade e, indiretamente, custam mais. Uma falha tem um custo equivalente a uma ou mais plantas produtivas, sendo que não rentabilizam. Estudos mostram que grande parte das lavouras brasileiras tem baixa eficiência operacional resultando em lavouras de risco, não competitivas, muito dependentes do mercado. Em um período de preços baixos, lavouras falhas levam muitos agricultores à falência.

Qualificação: caminho mais curto

A qualificação de operadores, mecânicos e gerentes agrícolas é o caminho mais curto para melhorar o desempenho das lavouras brasileiras. É preciso adotar uma metodologia própria para desenvolver a capacitação profissional em qualidade nas operações agrícolas. O método deve fazer com que ocorra uma adaptação da tecnologia para alfabetizaçäo de adultos. É como promover a “alfabetização tecnológica”. Tudo deve ser muito prático: enfoca-se o relacionando da geração de falhas ou defeitos com a manutenção de componentes ou com a qualidade dos insumos utilizados na operação.

Deve-se sempre lembrar que nos dias atuais, cada vez mais as máquinas dependem que o operador seja qualificado para utilizá-las e que conheça seus componentes e a tecnologia moderna.

Regulagem e operação da máquina

A regulagem da máquina é também um fator preponderante para uma semeadura de qualidade, pois envolve um conjunto considerável de componentes que vão se desgastando ao longo do trabalho. Outra orientação relevante é sobre o tempo da operação a velocidade indicada para operar a maioria das semeadoras brasileiras está entre 5 e 6 km por hora, com um consumo de diesel por volta de dez litros/hora.

Geralmente, o agricultor se preocupa apenas com alguns dos fatores na implantação da cultura, como por exemplo, a quantidade de sementes por metro linear visando ao “estande” recomendado para a cultura. Porém, um estande ideal é aquele que possui a quantidade recomendada de plantas produtivas no final do ciclo da cultura. A qualidade da semente, que representa um dos três insumos fundamentais dessa operação, seguida por fertilizantes e a graxa devem receber atenção especial para garantir a qualidade da implantação de uma cultura. Se a semente não tiver qualidade, não há operação de semeadura que resolva esse problema. É muito importante também uma distribuição equidistante das sementes na linha (figura 2), ou seja, uma boa relação entre os espaçamentos e o número correto de sementes, a chamada plantabilidade, que é o principal parâmetro para avaliar a qualidade. A boa plantabilidade é responsável pelo desenvolvimento uniforme e bom aproveitamento do potencial genético da semente.

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Figura 2 – Falhas na linha em função de defeitos operacionais

Os benefícios de operações realizadas corretamente são um incremento significativo no rendimento por planta e, consequentemente, um grande passo para alta rentabilidade. Assim, as correções dos erros durante as operações agrícolas são primordiais para elevar a produtividade. Como a gestão destas operações é de acordo com os detalhes, essas não devem cair na rotina de serem executadas mecanicamente.

Vários fatores influenciam o desempenho das plantas

Como já mencionado, são inúmeros os fatores de interação que influenciam o desempenho das plantas. A regulagem de profundidade das sementes depende da cultura, umidade e tipo de solo, além da época da semeadura. O adubo deve ser depositado ao lado e abaixo da semente para não “queimar” a plântula e prejudicar sua germinação, a máquina deve cobrir as sementes com o solo e expulsar o excesso de ar, moldando a linha de plantio de acordo com a cultura, como por exemplo, as dicotiledôneas que não toleram excesso de água nessa etapa e necessitam que a roda compactadora forme um camaleão sobre a semente e conduza a água para a entrelinha. Assim, as operações podem ser aprimoradas no sentido de melhorar a implantação de lavouras.

Existem tecnologias simples e prontas para serem adotadas. É preciso aproximá-las dos usuários finais. E com a facilidade de informação encontrada hoje em dia se torna muito fácil fazer um treinamento com os funcionários que operam as máquinas assim também como existem vários centros e locais que disponibilizam cursos geralmente grátis ou com preços acessíveis que fazem esses treinamentos, cabe ao produtor buscar a forma mais acessível para ele.

CONHEÇA OS BENEFÍCIOS DA RASTREABILIDADE NA PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA

Lucas Machado – Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A produção crescente de soja tem propiciado ao Brasil grandes volumes de exportação, sustentando nossa economia. No ano de 2015 o agronegócio brasileiro representou cerca de 23% do PIB, com um saldo superior a 80 bilhões de dólares. Com uma área plantada de 30 milhões de hectares e uma produção próxima a 100 milhões de toneladas, a soja tem se destacado.

Além dos problemas externos às propriedades, como o sistema de logística precário do país, o agronegócio enfrenta entraves dentro das próprias áreas de produção. Um desses entraves é o uso crescente de sementes não certificadas, que podem ser as sementes salvas para uso próprio e as “sementes piratas” ou “sementes ilegais”.

Por lei, as sementes salvas podem ser utilizadas para uso próprio, desde que as regras sejam cumpridas. As “sementes piratas” são comercializadas ilegalmente e na grande maioria das vezes são sementes que, produzidas teoricamente para uso próprio, são multiplicadas em volume superior ao que o agricultor necessita e o excedente é comercializado.

A certificação garante a qualidade das sementes produzidas e comercializadas. Sementes não certificadas não possuem garantia e por um preço menor podem esconder problemas que gerarão sérios prejuízos. Além de menor produtividade, elas podem disseminar patógenos provocando sérios problemas fitossanitários que no futuro poderão elevar os custos na tentativa de solucionar e interferir seriamente no sistema de produção de muitas regiões produtoras.

Nesse sentido, inserir informações detalhadas sobre a origem e as características dos produtos, distribuídos em lotes homogêneos, em todas as etapas da cadeia produtiva, tornou-se importante meio de vantagem comercial para atender às exigências do mercado consumidor.

Esse conjunto de informações detalhadas, é denominada como rastreabilidade e possibilita o monitoramento e controle de produtos e processos. Através dela é possível identificar a causa de problemas e realizar ações de melhoria, além de aumentar a transparência entre os elos da cadeia produtiva. As informações formam um banco de dados, onde a empresa passa a gerenciar todo o processo: cadastro de lotes; histórico das áreas de produção e UBS (unidade de beneficiamento de sementes); informações do controle oficial de qualidade; origem e tratamento de sementes e gerência de comentários feitos por clientes (figura 1).

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Figura 1: Informações do campo de produção de sementes. Fonte:abrates.org.br

Por meio da rastreabilidade é possível conhecer antecipadamente a qualidade da semente, e todas as etapas que fizeram parte do processo produtivo da mesma. Com essas informações podemos conhecer a identidade destas sementes, que são identificadas e separadas em lotes.

Com todas essas informações detalhadas, o produtor, ao adquirir este material tem maior tranquilidade no planejamento do plantio, que apostando em sementes de qualidade e origem comprovadas terá um excelente estabelecimento da cultura. Dessa forma ambos os lados saem ganhando – o produtor de sementes, que apresenta ao mercado um produto diferenciado, com rastreabilidade e o agricultor, por utilizar sementes com origem comprovada. O agricultor tem acesso via internet, através de um código de barras 2D (figura 2), às informações de origem destas sementes, controles de pragas e doenças no decorrer do processo produtivo, controles de qualidade, tratamentos realizados, informações técnicas, entre outras.

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Figura 2 Código de barras 2D (QR code). Fonte:.checkplant.com.br

Essa tecnologia permite ao agricultor consultar estas informações através de seu celular ou acessando o site e digitando o código contido na etiqueta da sacaria, além de poder deixar um comentário sobre o desempenho deste lote de sementes, criando desta forma, um elo de comunicação entre o agricultor e a empresa produtora de sementes que gerencia estas informações.

INOCULAÇÃO DE SEMENTES DE SOJA – UM FATOR DETERMINANTE NO SUCESSO DA LAVOURA

Lucas Machado – Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A soja é um dos ingredientes fundamentais na fabricação de ração animal e seu uso na alimentação humana tem crescido consideravelmente. A cultura corresponde a 49% da área plantada em grãos do Brasil, se destacando como a cultura que mais cresceu.

O nutriente requerido em maior quantidade pela cultura da soja é o nitrogênio e existem duas fontes disponíveis desse nutriente para a planta: fertilizantes nitrogenados e a fixação biológica do nitrogênio. A fixação biológica do nitrogênio (FBN) é um processo que capta o nitrogênio do ar e o disponibiliza para as plantas, ou seja, um processo natural.

A FBN acontece entre o contato de bactérias do gênero Bradyrhizobium e as raízes das plantas. As bactérias provocam uma infecção por meio dos pêlos radiculares, e essa infecção se manifesta na forma de nódulos (figura 1), exercendo uma relação de mutualismo: as bactérias sobrevivem nas raízes da planta, e em troca fixam o nitrogênio. Desta forma a planta aproveita o nitrogênio para sua nutrição.

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Figura 1 –  Nódulos na raiz da soja

Pesquisas mostram que aumentos obtidos em produtividade na cultura da soja podem chegar a 15% com o uso de inoculantes, até mesmo em áreas onde já houve a utilização dos mesmos. Existem duas formas de inoculantes no mercado atualmente: líquidos e turfosos, sendo o líquido o mais utilizado, por sua praticidade de aplicação. A população mínima de células/semente que um inoculante deve apresentar é de 600.000 células /semente.

Para garantir a eficiência da inoculação e ter maior segurança quanto ao investimento em inoculantes, ao adquirir o mesmo é importante verificar na embalagem o número de registro do Ministério da Agricultura, o prazo de validade e se este tem pelo menos, 600.000 células/semente.

Quanto à aplicação dos inoculantes turfosos, deve-se umedecer as sementes com uma solução adesiva ou açucarada para cobrir toda a sua superfície de maneira uniforme. Para isso são utilizados equipamentos como: tambores e betoneiras (figura 2). Após misturar, recomenda-se deixar as sementes secarem à sombra, protegidas do calor e em seguida iniciar o plantio. Esse procedimento é o mesmo utilizado para os inoculantes líquidos.LUCAS_INO_2

Figura 2 – Tambor para inoculação

Outra maneira de utilizar o inoculante é realizar a aplicação diretamente no sulco de plantio. Esse método é utilizado principalmente por quem faz tratamento de sementes utilizando fungicidas e micronutrientes, porque esses tratamentos reduzem a nodulação e a FBN. Neste caso a dose do inoculante deve ser 6 vezes maior que a normal, independente se o solo já foi inoculado ou não.

O cobalto e molibdênio são indispensáveis para a eficiência da FBN, e sua aplicação junto com fungicidas antes da inoculação, reduz a nodulação como já mencionado anteriormente. Assim, é recomendado como alternativa realizar uma pulverização foliar entre os estádios V3 e V5.

O sucesso da lavoura depende de um conjunto de atividades, práticas, processos e metodologias que devem ser seguidas, não basta apenas o inoculante ser bom, armazená-lo de forma adequada, realizar a prática da inoculação corretamente, não semear em solo seco, misturar o inoculante uniformemente, corrigir e adubar o solo com base em resultados de análise de solo, utilizar defensivos recomendados para a cultura e plantar com menos de 24 horas após a inoculação, essas são medidas que ajudarão alcançar as metas de produtividade e o sucesso da lavoura.