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BEM-ESTAR NA PRODUÇÃO DE PEIXE

Giane Lima Nepomuceno

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

Como toda parte dos processos zootécnicos, a piscicultura emprega sistemas que visam produzir o máximo ao menor custo. Porém, é cada vez mais reconhecido que a alta produtividade deve estar relacionada com cuidados apropriados aos peixes. A saúde e o bem-estar desses animais ocupam uma importância crescente nas técnicas de produção adotadas. A alimentação, o manejo, a qualidade da água, densidade de lotação, o transporte e o abate são os principais pontos críticos da produção de peixes, podendo interferir no seu grau de bem-estar.

Um manejo adequado é importante para o sucesso, como a captura para controle de doenças ou a classificação dos animais por tamanho e a despesca, são atividades causadoras de estresse físico e psicológico agudos. Podemos minimizar esse impacto negativo, associando alimento à captura e ao transporte (figura – 1).

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Figura 1: Um manejo adequado para o sucesso da produção.

Uma dieta nutricionalmente equilibrada é importante às necessidades específicas dos peixes e fundamental para manter o funcionamento orgânico normal e a resistência às doenças. Embora os períodos de privação alimentar possam não ter tanto impacto no equilíbrio dos peixes, a consideração da sua “vontade” de se alimentar é essencial na preservação do bem-estar. As consequências de privação alimentar prolongada, como é o caso do período de depuração, incluem a erosão da nadadeira dorsal devido ao canibalismo, e a perda de peso e de condição física em várias espécies. Quando, além do jejum, os peixes ainda se encontram alojados em tanques com baixa qualidade da água e alta densidade de alojamento, os fatores se somam, deixando os peixes em condições ainda piores.

A qualidade da água e os fatores ambientais associados constituem uma das áreas de maior atenção por parte da investigação sobre o estresse em peixes, tanto pela indústria quanto pelos grupos de pesquisa em bem-estar. As concentrações de oxigênio, de dióxido de carbono e de nitrogênio dissolvidos na água, a salinidade e o pH, a taxa de circulação da água, a temperatura e os regimes de luminosidade são os fatores ambientais mais críticos à manutenção do equilíbrio orgânico (ou homeostasia) dos peixes. Para obtenção de valores ótimos é necessário levar em consideração as características naturais dos animais, assim como a interação com peixes da mesma espécie, o espaço disponível e o ambiente social como um todo.

A frequente utilização pela atividade de produção de substâncias químicas na água, como desinfetantes e medicamentos (incluindo as vacinas) também é um aspecto que carece de controle na proteção dos peixes. Os peixes infestados por parasitas geralmente recebem banhos terapêuticos com organofosforados, piretróides e desinfetantes. Estes tratamentos causam estresse aos peixes, podendo fazer com que os peixes não se alimentem por vários dias (LYMBERY, 2002).

A densidade de lotação nos sistemas de criação de peixes é um dos fatores mais críticos em aquicultura e no bem-estar dos animais. Quando a alta estocagem é associada com a baixa qualidade da água, o bem-estar dos peixes é prejudicado de forma ainda mais intensa. Além de influenciar negativamente a qualidade da água, a alta estocagem de peixes promove o comportamento anormal dos peixes, como o aumento da agressividade, favorecendo o aparecimento de ferimentos, doenças e deformidades, ainda, nestas condições aumentam as infestações parasitárias, gerando altas taxas de mortalidade (figura – 2).

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Figura 2: Densidade de lotação é um dos fatores críticos em aquicultura e no bem-estar.

A densidade ideal dos grupos depende das características comportamentais dos animais, em particular, a tendência para formar cardumes ou a territorialidade. Para algumas espécies existe uma determinada densidade considerada ótima, pois densidades mais baixas promovem agressividade entre machos e densidades mais elevadas têm efeitos negativos para a reprodução. Outras consequências de alta densidade por período prolongado incluem a redução das taxas de conversão e crescimento, a redução da condição física e a erosão das nadadeiras dorsais.

No Brasil, já há alguma indicação da tendência dos rumos do setor produtivo, que deverá seguir os passos dos países europeus, recomendação da Compassion in World Farming (CIWF) para a introdução na legislação europeia de densidades máximas de estocagem, de 20 kg/m3 para trutas e de 10 kg/m3 para o salmão. Porém, especificamente para peixes de produção ainda não existe legislação que determine máximas de estocagem, o que nos leva a refletir sobre a necessidade de discussão mais ampla sobre o tema, envolvendo a participação de representantes de todos os setores ligados à cadeia produtiva.

Os fatores críticos a se considerar em relação ao transporte são a captura, a espera pelo transporte, a embalagem dos peixes e o controle dos fatores ambientais da água durante o transporte, já que os animais são transportados em tanques sob elevada densidade de lotação. O estresse fisiológico provocado pelo manuseio, pelo acúmulo de dióxido de carbono e amônia na água, e o transporte propriamente dito dos peixes permanece por seis horas a um dia, mas pode persistir até duas semanas se a exposição aos agentes de estresse se mantiver ou então se os peixes já estiverem debilitados antes mesmo do transporte (SCHRECK et al., 1997).

As recomendações sugeridas pela Autoridade de Segurança Alimentar Europeia no transporte de peixes incluem dispor oxigênio suficiente, evitar exposição dos peixes ao ar durante o carregamento, ajustar a privação de alimento antes do transporte de acordo com a espécie, o tamanho e a temperatura, evitar ao máximo o contato da estrutura e dos equipamentos do veículo de transporte com os animais e monitorar a qualidade da água e as condições dos peixes. Deste modo, obtemos um maior grau de bem-estar e diminuição de perdas econômicas para o produtor.