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DISTÚRBIOS COMPORTAMENTAIS DE RUMINANTES, SEM ASSOCIAÇÃO COM DOENÇAS

Diovana M. Santos

Universidade Federal de Lavras- 3rlab

Na criação de ruminantes é necessário que os produtores e técnicos tenham conhecimento do comportamento natural dos animais nas condições de criação, para evitar situações que possam levar a prejuízos econômicos. O estresse tem um efeito sobre o sistema de homeostase dos animais, que reduz sua capacidade de ajustes necessários em um ambiente desfavorável.

Geralmente os animais passam a ter comportamentos incomuns quando estão sofrendo estresse com algum fator ambiental, quando os animais não têm todos os recursos necessários para o seu bem-estar ou algum fator específico como a alimentação. Segundo Fraser, o bem-estar animal pode ser caracterizado quando o desempenho dos animais for compatível com o propósito deles, quando se sentirem bem (p.ex. isentos de dores) e quando viverem em ambiente adequado. Porém é necessário saber diferenciar distúrbios comportamentais causados por doenças e os causados por prejuízos em seu bem-estar.

Os bovinos são animais gregários que competem pelos recursos ambientais, o que pode levar às interações negativas entre os animais do mesmo grupo, porém em condições naturais essas interações são controladas por mecanismos que definem a organização social entre os indivíduos.

Existem dois padrões sociais dentro do rebanho: a hierarquia de dominância e a liderança na movimentação. A primeira é fruto das interações agressivas entre os indivíduos, causado por um recurso ambiental, sendo necessária atenção na formação dos lotes em sistemas intensivos (confinamento, free-stall, etc.), para evitar um estado de estresse constante nos animais. Na movimentação (figura 1), um pequeno grupo (líderes) começa o deslocamento e é seguido pelos demais animais, não sendo necessariamente os mais agressivos ou mais fortes. Nas criações de vacas, por exemplo, as líderes são sempre as mais velhas.

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Figura 1- Animais em movimentação, seguindo os líderes.

Na suplementação mineral, por exemplo, ocorrem erros com a desatenção ou desconhecimento desses padrões sociais, quando o suplemento é fornecido em cochos com 1 a 2 cm de espaço linear por animal, ou então na suplementação proteico-energética utilizando cochos de tamanho inadequado (< 5 cm/animal). Em ambas as situações os líderes chegam primeiro nos cochos, consomem o produto e se retiram, e então os animais liderados os seguem sem terem consumido ou tendo consumido menos suplemento do que seria necessário. Esses erros podem resultar em deficiência mineral, desuniformidade no ganho de peso, ou consumo excessivo de uréia (quando adicionada no suplemento).

A concentração populacional também é um fator relevante, pois em altas concentrações populacionais os animais não conseguem defender seu espaço individual, o que pode gerar comportamentos agressivos. E em grupos muito grandes os animais podem ter dificuldades em memorizar todos os componentes do grupo e suas posições na hierarquia social do rebanho. Portanto, animais mantidos em grupos muito grandes têm pioras no desempenho individual e desenvolvem distúrbios comportamentais. É importante manter um lote estável na sua composição, pois a inserção de novos animais altera a hierarquia social já estabelecida.

O temperamento dos animais (muito agressivos ou submissos) é outro item que deve ser considerado, pois esses comportamentos extremos devem ser evitados, retirando esses animais do lote, para evitar interferências no consumo de alimentos, e evitar também que os animais mais submissos apanhem com frequência, com danos em sua alimentação.

Alguns distúrbios também são causados pelo sistema de aleitamento, hábitos de mastigar e/ou sugar madeira, trincos, cadeados ou canos de ferro (figura 2) são comuns, no entanto é necessário identificar se esse hábito é persistente ao longo do dia, de forma repetitiva, regular ou invariável, o que caracterizaria uma estereotipia.

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Figura 2- Animal mordendo cano.

Estes são apenas alguns exemplos de distúrbios comportamentais, dentro de tantos outros conhecidos, portanto é preciso estar atento aos diversos fatores que possam ser causadores de estresse, e evita-los para garantir qualidade de vida para os animais e lucro para os produtores.