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Castração orgânica

Rafael Achilles Marcelino

Universidade Federal de Lavras -3rlab

Motivado pela questão do bem-estar animal, alguns profissionais da área começaram a pesquisar maneiras de minimizar o estresse e o sofrimento dos animais submetidos à castração convencional. E, após anos de pesquisas em conjunto com várias instituições de ensino desenvolveram o método de castração orgânica de mamíferos, que já está sendo utilizado, de forma experimental – com sucesso – em fazendas da região Sudeste, Norte e Centro-Oeste do país.

Superando as expectativas iniciais, o método tem mostrado uma série de outros benefícios adicionais. O principal deles é o desempenho superior em ganho de peso dos animais castrados de forma orgânica, quando comparados com os castrados da maneira cirúrgica tradicional. Além disso, com a pressão crescente dos consumidores quanto aos aspectos ligados ao bem-estar animal, a castração cirúrgica deve cair em desuso, como já acontece na maioria dos países europeus. Lá, tal prática não é permitida sem anestesia prévia. Diante disso, métodos alternativos de castração não-cirúrgica serão incorporados à rotina das propriedades rurais que primam pela produção de carne de qualidade.

No Mato Grosso do Sul, na cidade de Bonito, o médico veterinário Diogo Vivacqua de Lima está coordenando um trabalho na Fazenda América, do pecuarista Luiz Brito, com o objetivo de identificar o melhor peso e idade para castração. Resultados preliminares demonstraram que os animais castrados mais jovens, pesando até 360 kg, tiveram um melhor desempenho do que os castrados com cerca de 420 kg. Em outro experimento conduzido na Fazenda Jaop, no Espírito Santo, os animais do lote submetidos à castração orgânica, apresentaram um ganho de peso superior quando comparados aos submetidos à cirurgia, inclusive com um rendimento de carcaça 2% superior, gerando um lucro de 19,7 kg no peso de carcaça final de cada animal.

Vantagens sobre métodos tradicionais

Sob o risco de hemorragias, infecções, tétano e problemas que resultam em gastos com mão de obra, a utilização incorreta do burdizzo (figura 1), alicate ou emasculador, para a castração pode levar a um processo inflamatório de grandes proporções. O prejuízo é sentido na perda de peso do animal, utilização de medicamentos, necessidade de uma cirurgia, podendo, inclusive, ocasionar até mesmo a morte do animal. A castração cirúrgica requer mais cuidados médicos, com a ida dos animais, no mínimo, duas vezes ao curral.

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Figura 1 – Burdizzo

Com o uso da substância orgânica, não é necessário o uso de outros medicamentos e não ocorre perda de peso. Somasse a essas vantagens, o fato de a prática ser humana e ecologicamente correta, pois não provoca dor nos animais tratados. Quanto ao produto, por ter princípios ativos naturais, não causa contaminação na carne e do meio ambiente por ocasião da eliminação das secreções corpóreas (saliva, fezes e urina).

Os princípios ativos do produto são à base de ácido lático e papaína, que têm efeito esclerosante. Sua ação, logo ao entrar em contato com o tecido testicular, induz, inicialmente, um processo inflamatório e, posteriormente, a uma substituição deste tecido por tecido fibroso. O produto também contém uma enzima biológica que promove a digestão do tecido testicular, permitindo que o medicamento tenha o seu efeito potencializado.

Por ser um método de castração que não requer cirurgia, é indicado para a eliminação da síntese testicular de testosterona de ruminantes como bovinos, ovinos e caprinos. O produto também pode ser utilizado na epidídimocaudectomia, na qual se deseja a esterilização sexual com a manutenção da libido.

A aplicação do produto é feita dentro do testículo, causando uma reação inflamatória como resposta do organismo. O resultado é um edema do órgão, com os animais apresentando um ligeiro desconforto nas primeiras 24 horas após a aplicação. A grande maioria dos animais continua se alimentando normalmente e não apresenta reações sistêmicas. A medida em que o processo inflamatório vai se tornando crônico, ocorre a diminuição do diâmetro dos testículos e sua consistência aumenta em consequencia da substituição do tecido testicular por fibroso. Devido a esta reação, o animal deixa de produzir a testosterona, diminuindo o desejo sexual e a produção de espermatozóides, o que impede a realização da cobertura e de fecundação das fêmeas.

No processo, o tecido testicular sofre uma degeneração irreversível, com fibrosamento dos túbulos seminíferos (figura 2), as células responsáveis pela formação dos espermatozóides. Também ocorre lesão nas células de Leydig que responde pela produção da testosterona, o hormônio masculino. A diminuição da produção da testosterona ocorre imediatamente após a aplicação, e os ruminantes já apresentam ausência de libido (interesse sexual) e redução da agressividade já 24 horas após a aplicação.

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Figura 2 – Testículo e túbulos seminíferos

Nos estudos realizados a campo, foi verificado que os níveis sanguíneos de testosterona dos animais submetidos ao tratamento sofreram redução de 80% em 24 horas. O espermograma já apresentava ausência de espermatozoides móveis e a biópsia testicular apresentou, como resultado, um processo de degeneração das células do órgão.

A faixa etária indicada para os bovinos receberem o produto é de 60 dias até três anos de idade. O peso máximo recomendado é de 300 kg. A recomendação do corpo técnico, é de se proceder a aplicação nos animais após a desmama (210 – 240Kg). Os melhores resultados foram observados nessa faixa, pois não compromete o crescimeto, ganho de peso final e qualidade da carcaça. Além disso, facilita operações de manejo, pelo fato de os animais se tornarem mais dóceis.

Com relação a comercialização da carne, os princípios ativos contidos no produto são rapidamente metabolizáveis no organismo animal, não sendo necessário respeitar um período de carência entre a aplicação e o abate. Mesmo se ocorrer um acidente durante a aplicação e for necessário sacrificar o bovino, sua carne pode ser aproveitada sem receio.

Segurança ambiental

Já a segurança para o meio ambiente reside na composição natural dos princípios ativos: enquanto a enzima papaína é extraída do látex do mamoeiro, o ácido lático é um componente presente em produtos alimentícios (requeijão, iogurte etc.) e é gerado pelo metabolismo de todos os mamíferos. Existe, assim, a biossegurança para o aplicador e para o animal, pois tais princípios não estarão nas secreções corpóreas, não havendo risco de contaminação do meio ambiente.