Arquivo da categoria: Bovinos

IMPORTÂNCIA DO COLOSTRO NA CRIAÇÃO DE BEZERROS

Giane Lima Nepomuceno

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

 

O colostro é o primeiro leite secretado pela vaca após o parto, sendo produzido aproximadamente por três dias consecutivos. A oferta de colostro para os bezerros recém-nascidos é fundamental porque os bovinos e outros ruminantes possuem uma placenta diferenciada de outros mamíferos.  A placenta da vaca não permite a passagem de anticorpos da mãe para o feto.

Após o nascimento, o bezerro deve permanecer junto com a mãe por pelo menos 24 horas. Sabemos que o bezerro junto com a mãe, mama entre 12 a 15 vezes ao dia. Estas mamadas permitem que o colostro passe muitas vezes pelo aparelho digestivo aumentando a superfície de contato do colostro com a parede intestinal favorecendo assim a absorção de imunoglobulinas (anticorpos). Por outro lado, podemos fornecer o colostro de forma artificial oferecendo dois litros duas vezes por dia com intervalo próximo de 12 horas. O importante é que o bezerro ingira em torno de 10% do seu peso em colostro, nas primeiras 24 horas. O bezerro nasce sem proteção de anticorpos contra os agentes de doenças. A forma de adquirir estes anticorpos (defesa) é ingerindo o colostro. O colostro é o primeiro produto produzido pela glândula mamária no início da lactação, é uma rica fonte destes anticorpos que foram produzidos nos dois últimos meses de gestação. Após o nascimento, é indispensável que o bezerro ingira o colostro o quanto antes para que ele adquira estes anticorpos.

A capacidade de absorver os anticorpos fornecidos pela mãe no interior do aparelho digestivo do bezerro é aproximadamente nas primeiras 36 horas e esta capacidade de absorção tem como pico máximo entre seis e dez horas, quando começa a diminuir gradativamente até aproximadamente 36 horas. A partir deste ponto o colostro continua sendo um alimento muito rico e deve ser aproveitado pelo bezerro e outros do mesmo plantel que são tratados de forma artificial, porém perde a importância como fonte de anticorpos.

De outra forma uma das funções do colostro é ajudar na primeira descarga intestinal, isto é, ajuda a expelir as primeiras fezes que é o chamado mecônio. O mecônio são fezes amarelas pegajosas de difícil eliminação, portanto sendo o colostro um leve laxante vai ajudar nesta eliminação. Neste período devemos interferir somente se houver necessidade. Na maioria das vezes, esta intervenção é desnecessária. Uma das vantagens da maternidade é a possibilidade de observação do recém-nascido e qualquer problema que surgir neste local facilita o socorro.

O excesso colostro pode e deve ser dado para os outros bezerros. Neste caso ele não tem função como fornecedor de anticorpos, pois bezerros mais velhos perdem a capacidade de absorção dos anticorpos, mas, como alimento é até mais rico que o próprio leite. É bom lembrar que como o colostro tem uma função laxativa, para fornecer aos outros bezerros o melhor é diluir em outra quantidade de leite para não causar males de desarranjo aos bezerros mais velhos.

Manejo adequado para as vacas em mojo e bezerros recém-nascidos seria:

 

  • Alimentar adequadamente as vacas secas para estas produzirem um colostro de boa qualidade;
  • O piquete maternidade deve ser em um local de fácil acesso e bem visível por todos os funcionários da fazenda;
  • A maternidade deve ser um local limpo;
  • Ordenhar a vaca somente depois que o bezerro mamou bem o colostro, o bezerro deve mamar no mínimo dois litros de colostro por mamada;
  • Se notar que o bezerro não mamou o colostro nas primeiras 6 horas de vida, ordenhar a vaca e dar o colostro na mamadeira (figura – 1).
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Figura 1: Colostro fornecido na mamadeira.

 

Após o bezerro ser separada da mãe o colostro deve ser oferecido até o terceiro dia de vida. Depois deste período o fornecimento de colostro pode causar diarreia porque o intestino do bezerro vai modificando suas células por outras que não permitem a absorção das imunoglobulinas. Após esta data o colostro pode ser fornecido em pequenas quantidades diluído no leite.

A qualidade do colostro, ou seja, a quantidade de imunoglobulinas pode variar entre as ordenhas, entre raças, entre vacas da mesma raça, por exemplo, vacas de primeira cria possuem concentrações menores de imunoglobulinas do que vacas de duas ou mais crias.

Existe um densímetro chamado colostrômetro que pode ser utilizado na prática para verificar a concentração de imunoglobulinas do colostro. Assim o criador pode avaliar a qualidade do colostro e reservar o de melhor qualidade para a sua criação.

O colostro é considerado de baixa qualidade quando possui concentração de imunoglobulinas abaixo de 20  mg/ml,  de  20  a  50  mg/ml  de  média  qualidade  e  de  alta qualidade com concentrações superiores de 50 mg/ml (figura – 2).

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Figura 2: Classificação do colostro fornecida pelo colostrômetro.

 

O colostro pode ser conservado em geladeira por até uma semana ou congelado por até um ano sem perder sua qualidade.

Este banco de colostro deve conter colostro de boa qualidade. Deve ser armazenado em porções pequenas (2 litros), para facilitar o descongelamento e evitar desperdício. Pode ser armazenados em garrafas plásticas ou bandejas e devidamente datados para o controle da validade. O colostro congelado deve ser descongelado lentamente em água morna (50oC), ou microondas em baixa potência.

Bezerros bem colostrados são bezerro sadios!

O produtor economiza em medicamentos e consegue desmamar animais com maior desempenho.

 

Considerações práticas para o manejo de colostro:

 

  • Fazer o bezerro mamar o colostro o quanto antes após o nascimento;
  • Fornecer o colostro (4 litros/dia) em duas refeições por até três dias;
  • Fornecer o colostro da mãe ou se for do banco de colostro um de boa qualidade;
  • Caso o animal não queira mamar o colostro sozinho na mãe dar na mamadeira ou forçar o consumo através de sonda esofagiana;
  • Não fornecer colostro com sangue ou com mastite.
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FATORES QUE INFLUENCIAM O RENDIMENTO DA CARCAÇA BOVINA

Giane Lima Nepomuceno

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A carcaça bovina é normalmente dividida em três grandes partes, nas quais são comercializadas (dianteiro, traseiro e ponta de agulha). O rendimento dos cortes primários da carcaça bovina é de grande importância para a indústria frigorífica, pois carcaças com excessivo teor de gordura serão mais aparadas, gerando maiores custos com operadores e maiores perdas econômicas, já que as aparas têm menor valor comercial.

A busca da produção da carcaça ideal está diretamente ligada à preferência do consumidor, que está em um extremo da cadeia, procurando por textura, aparência e custo.

No outro extremo, tem-se o produtor de gado de corte que espera conseguir a maior rentabilidade de sua atividade, através do manejo alimentar e da escolha de raças ou cruzamentos, que permitam a produção de carcaças desejadas pela indústria frigorífica (figura-1).

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Figura 1: Através do manejo alimentar e da escolha de raças ou cruzamentos, que permitam a produção de carcaças desejadas pela indústria frigorífica.

A Carcaça

Entende-se por carcaça, o bovino abatido, sangrado, esfolado, eviscerado, desprovido da cabeça, patas, rabada, glândula mamaria (fêmea), verga, exceto suas raízes, e testículos (macho). Após a sua divisão em meias carcaças, retiram-se ainda os rins, gorduras peri-renal e inguinal, ‘ferida de sangria’, medula espinal, diafragma e seus pilares.

A cabeça é separada da carcaça entre o osso occipital e a primeira vértebra cervical (atlas). As patas dianteiras são seccionadas à altura da articulação carpo-metacarpiana e as traseiras na articulação tarso-metatarsiana.

Meia carcaça

Resulta do corte longitudinal da carcaça, abrangendo a sínfise ísquio-pubiana, a coluna vertebral e o esterno (figura-2).

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Figura 2: Resulta do corte longitudinal da carcaça, abrangendo a sínfise ísquio-pubiana, a coluna vertebral e o esterno.

Rendimento da carcaça

O rendimento da carcaça é a relação entre o peso do animal a ser abatido (vivo) e o peso da carcaça expresso em porcentagem.

Uma carcaça é composta principalmente da porção muscular, dos ossos e da gordura, sendo a gordura o mais variável dos três componentes e também o que exerce maior influência no rendimento. Vários fatores estão relacionados ao rendimento, dentre os quais os mais importantes são: o grau de acabamento (a quantidade de gordura), o tipo da dieta, o sexo e a raça.

  • Peso vivo: o aumento do peso vivo favorece o aumento no rendimento; porém, após atingir o peso adulto o maior rendimento se dará mais pelo acumulo de gordura.

 

  • Manejo pré-abate: alguns procedimentos anteriores ao abate exercem influência no rendimento, sendo eles: o acesso à água e alimentos, o tempo de jejum antes da pesagem (quanto maior o tempo e distância transportada, maior o rendimento).

 

 

  • Raça: as de origem britânica que apresentam uma deposição de gordura mais intensa apresentam rendimento de carcaça superior às raças de origem continental, principalmente em razão da maior quantidade de gordura na carcaça.

 

  • Idade: conforme a idade do animal aumenta, o rendimento da carcaça também aumenta. Após atingir a idade adulta o aumento no rendimento é menor e mais relacionado à quantidade de gordura.

 

 

  • Sexo: as diferenças observadas no rendimento das carcaças de machos inteiros e castrados (novilhos) tem sido pequenas, com alguns trabalhos relatando um rendimento ligeiramente superior para os inteiros. Novilhas apresentam maior rendimento que os machos devido ao maior acúmulo de gordura em suas carcaças.

 

  • Tipo de dieta: quanto maior a quantidade de concentrados na ração, maior será o rendimento da carcaça. Animais recebendo alto teor de volumosos apresentam uma grande quantidade de conteúdo gastrintestinal, diminuindo assim o rendimento.

 

Eficiência alimentar na seleção de bovinos de corte

Rafael Achilles Marcelino

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A pecuária de corte é cada vez mais competitiva e diversos recursos têm sido aplicados para se conseguir reduzir a idade do abate dos bovinos. Produzir mais carne em menos tempo é a meta e visa ao aumento da rentabilidade da propriedade. Uma das alternativas é a seleção de animais mais eficientes, que pode ser realizada de diferentes maneiras, como por exemplo, avaliando a conversão alimentar do bovino (kg consumo: kg ganho). Entretanto, esta seleção teria como desvantagem escolher animais apenas por tamanho ou nível de alimentação. Selecionar por conversão alimentar privilegia bovinos de maior porte, cujo maior inconveniente seria o aumento no requerimento da energia necessária para que o bovino desempenhe suas atividades básicas, como andar ou pastejar. Isto é chamado tecnicamente de energia que o animal gasta para sua mantença, fazendo com que o animal tenha maior consumo de alimento, elevandoo custo da produção de sua carne na fazenda. Outra opção é trabalhar com animais geneticamente superiores, que respondam positivamente a alimentação, com potencial para ganhar peso comendo menos.

Muitas vezes, percebe-se essa característica em alguns animais do mesmo grupo contemporâneo, com idades e pesos semelhantes: eles apresentam desempenhos diferenciados ao consumir a mesma quantidade de alimento. Este conceito de seleção de animais mais eficientes foi inicialmente desenvolvido na década de 60 com retorno não muito promissor. Porém, nos últimos anos, tem sido dada grande ênfase a este tipo de seleção em países como Austrália, EUA, Canadá e Brasil. A seleção é feita através da técnica de avaliação do consumo alimentar residual (CAR). Diferentemente da conversão alimentar, o CAR é calculado como a diferença entre consumo real e a quantidade de alimento que um animal deveria comer de acordo com seu peso vivo médio durante um determinado período, mostrando uma prova de ganho de peso. Sendo assim, animais mais eficientes têm CAR negativo, enquanto os menos eficientes têm CAR positivo.

O CAR é uma característica que apresenta variabilidade genética, passível de melhoramento por seleção e possui herdabilidade moderada. A herdabilidade mede o nível da correspondência entre o fenótipo e o valor genético de cada bovino, lembrando que o fenótipo é o conjunto de características observáveis como, por exemplo, o desenvolvimento ou a morfologia do animal.

No Estado do Rio de Janeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) tem desenvolvido pesquisas na identificação destes bovinos mais eficientes, com CAR negativo, sob o comando do professor Carlos Augusto de Alencar Fontes. Sua equipe de pesquisa fizeram um experimento com bovinos castrados mestiços 1/2 sangue Nelore X Red Angus, criados em piquetes de pastagens rotacionadas de capim-mombaça (figura 1). Os animais foram divididos em grupos: uma vez ao dia, grupos específicos recebiam ração concentrada (contendo proteína e energia) em cocho individual, onde diariamente se calculava o consumo real de ração concentrada (ofertada a 0,6% do peso vivo de cada animal por dia). Ao término do período de experimento, todos os animais foram abatidos para uma avaliação detalhada sobre o rendimento das carcaças.

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Figura 1 – Pastagens rotacionadas de capim-mombaça

Efeito do CAR sobre a composição da carcaça

Muitos resultados de experimentos indicam que animais com CAR negativo tendem a apresentar espessura de gordura subcutânea, não ocorrendo o risco de terem uma carcaça com deficiência de cobertura externa de gordura, o que poderia desvalorizar o preço da carne. A falta de gordura leva ao encurtamento da carcaça durante o processo de refrigeração a câmara frigorífica. Mas na prática, é observado que animais com CAR negativo tendem a ter carcaças mais magras e com menor marmoreio (figura 2). Este fato pode ser explicado porque o depósito de gordura na carcaça depende de maior aporte de energia, seja por maior ingestão de alimento ou de concentrado. A gordura lombar pode ser verificada com os bovinos vivos com auxílio de um aparelho de ultrassom. De qualquer forma, entende-se que a deposição da gordura na carcaça é menos eficiente do ponto de vista energético do que a deposição de proteína, que é objetivo da pesquisa. Porém, não existem estudos que comprovem alterações na maciezou sabor da carne bovina após o animal ser classificado como mais ou menos eficiente — CAR negativo ou positivo.