Arquivo da categoria: Bovinos Leiteiros

INFLUÊNCIA DA NUTRIÇÃO EM GADO LEITEIRO NA QUALIDADE DO LEITE

Giane Lima Nepomuceno

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A manutenção de qualquer atividade produtiva depende basicamente da eficiência do sistema de produção animal, que pode ser traduzida pela maior produtividade com o menor custo possível. Na atividade leiteira, a nutrição animal é o principal fator da eficiência do sistema de produção, pois é a maior responsável pelo nível de produção e pode representar até 70% dos custos (figura – 1). Portanto, se pode afirmar que, quanto mais eficiente for à nutrição animal de um rebanho, mais eficiente será o sistema de produção de leite.

A composição do leite de vacas leiteiras é determinada por vários fatores, como raça, estação do ano, genética, estágio de lactação, sanidade e nutrição animal. As tendências atuais da comercialização do leite demandam a obtenção de certos produtos lácteos, em geral influenciados pela composição do leite, diretamente correlacionada à nutrição dos animais. A gordura é o componente de maior variabilidade do leite, podendo variar de 2% a 5%. Essa porcentagem é fortemente influenciada pela genética, fatores nutricionais e fatores ambientais.

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Figura 1: A nutrição animal é o principal fator da eficiência do sistema de produção, podendo representar ate 70% do custo de produção.

A gordura, a proteína, o fósforo e o extrato seco desengordurado são as variáveis de maior importância econômica, servindo de critério para o pagamento do leite em muitos países. Algumas medidas podem ser tomadas para alterar a porcentagem de sólidos no leite. Como:

Relação volumoso: concentrado

A explicação tradicional é a de que um aumento no concentrado na dieta de vacas leiteiras que ultrapasse 50% reduz a concentração de gordura do leite em função de uma alteração ruminal. O substrato ruminal com maior concentração de concentrado proporciona uma maior concentração de ácidos graxos voláteis, que reduzem o pH do rúmen para menos de 6,0, acarretando uma menor degradação da parte fibrosa da dieta.

Quantidade e fonte de proteína

 

Esse assunto tem sido muito discutido e verificou-se que a porcentagem de proteína do leite é aumentada quando é também fornecida em maior proporção na dieta. Esse dado é ainda mais concreto quando a fonte de proteína administrada é resistente aos microrganismos do rúmen. Uma maneira de fornecer proteínas não degradáveis no rúmen aos animais é a utilização de grãos que sofrem tratamento térmico na formulação de dietas. Deve-se ter cuidado nesse processo, pois o excesso de calor pode provocar uma reação indesejável, como a reação de Maillard ou caramelização, que torna a proteína indisponível para o animal mesmo depois de passar pelo rúmen.

Quantidade e tipo de fibra

Como regra geral, as dietas devem conter um mínimo de 28% de FDN, sendo 75% deste proveniente de forragens não finamente moídas (fibra efetiva).

Outro aspecto nutricional relacionado com a gordura do leite é a quantidade de fibra efetiva. A fibra efetiva é responsável pela manutenção do pH ruminal acima de 6,2 através do estímulo à ruminação, que provoca um aumento na produção de saliva e na liberação de tamponantes. A dieta deve conter no mínimo 22% de fibra efetiva, para que apresente efeito sobre as bactérias celulolíticas, sensíveis a baixo pH. Desta forma, o aproveitamento e a digestibilidade da porção fibrosa da dieta é maximizada e convertida em maior produção de leite de melhor qualidade.

 

Aditivos

Os tipos de aditivos mais comuns utilizados visando melhorar o desempenho produtivo de ruminantes que influenciam os teores de gordura do leite são os tamponantes e os ionóforos ou modificadores ruminais.

Os tamponantes como bicarbonato de sódio minimizam a queda do pH ruminal, evitando acidose ruminal quando dietas com alta proporção de concentrados são fornecidas para os animais, mantendo ativas as bactérias que fermentam a fibra. Assim, os níveis de ácido acético (precursor de gordura do leite) não são reduzidos e não afetam o teor de gordura no leite.

Os ionóforos diminuem os teores de gordura do leite. Sua ação por meio da seleção de algumas bactérias ruminais que melhor convertem os alimentos em nutrientes, reduzindo a produção de gás carbônico e metano no rúmen, promove um aumento do ácido propiônico (precursor de proteína do leite) e uma redução do ácido acético. Dessa forma, existe um aumento na produção de leite, porém com teores menores de gordura. O conhecimento dos fatores que influenciam a composição nutricional do leite traz algumas vantagens ao produtor. Trata-se de uma ferramenta importante na avaliação nutricional da dieta, podendo levar à informações sobre a eficiência de utilização de nutrientes e sobre a saúde animal.

Assim, o produtor pode e deve adotar boas práticas de manejo nutricional que possibilitem conforto, saúde, acesso fácil à alimentação e dietas bem balanceadas em proteína (níveis adequados de proteína degradável e não degradável no rúmen), energia, fibra, minerais e vitaminas. Essas práticas são pontos-chaves para a obtenção de leite com alto valor nutritivo que, aliado às boas práticas de higiene e investimento em capacitação de mão-de- obra e capacitação técnica especializada, são primordiais para melhorar a qualidade do leite e, dessa forma, encarar o sistema de pagamento por qualidade como uma maneira real de agregar valor a seu produto.

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Ganho compensatório durante o período de recria de novilhas leiteiras

Rafael Achilles Marcelino

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A reposição de novilhas em um rebanho leiteiro pode comprometer até 20% do gasto total deste rebanho. Elevar o consumo de energia na fase da pré-puberdade influenciará no ganho de peso, no crescimento das novilhas e na idade à puberdade. Entretanto este manejo pode ser mais custoso para o sistema, como também pode ter efeito negativo sobre o desenvolvimento da glândula mamária e assim comprometer a futura produção de leite.

O ganho compensatório é uma reação fisiológica do animal que passa por um período de privação alimentar devido ao manejo nutricional ou devido as influências climáticas cujas respostas em crescimento e/ou ganho de peso variam de acordo com tempo de restrição, idade, saúde inicial dos animais, tipo de dieta e potencial genético de ganho. Estas respostas vêm sendo estudadas ao longo dos anos em suínos; aves; bovinos de corte; cordeiros; equinos  e pouco, mas também tem sido pesquisado, em novilhas leiteiras.

Este manejo pode resultar em maior ganho de peso e crescimento, podendo alterar a composição dos tecidos, melhorar a eficiência alimentar, melhorar a utilização da energia metabolizável da dieta, reduzir os requisitos de mantença durante o período de alimentaçäo adequada e melhorar a produção de leite futura.

O ganho compensatório pode ocorrer devido a mudanças no manejo alimentar. Pesquisas feitas com novilhas da raça Holandês (figura 1), com peso médio inicial de 205 e 172 kg, respectivamente, mostrou maior ganho de peso, menor consumo de matéria seca e melhor eficiência alimentar nas novilhas que passaram por restrição de energia na dieta do que nas novilhas sem restrição. O crescimento compensatório influenciou significativamente o desenvolvimento, a composição dos tecidos e o metabolismo dessas novilhas, reduzindo os requisitos de mantença e deprimindo a taxa do metabolismo basal.

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Figura 1 – Novilha holandesa

 

Novilhas leiteras da raça Holandês e Pardo Suiço, respectivamente receberam alimentação com e sem restrição de energia na dieta e com e sem ionófor, foi-se observado que houve meor consumo de matéria seca, maior ganho de peso e melhor eficiência alimentar no grupo de novilhas que sofreram restrição alimentar por 90 dias, seguidos de uma realimentação de 60 dias. O grupo que receu suplementação com o ionóforo lasalocida o aumento de 12,2% na eficiência do crescimento das novilhas. As novilhas que passaram por restrição receberam neste momento uma dieta de baixa qualidade com maior teor de fibra e menor concentração de grãos. Durante a realimentação, elas receberam uma dieta com menor teor de fibra, maior proporção de grãos e sementes oleaginosas.

Reduzir o tempo da recria, faz com que as novilhas entrem na vida produtiva mais cedo podendo assim reduzir os custos de produção desta fase, entretanto, deve se controlar o consumo calórico nesta fase para que as novilhas não fiquem super condicionadas, pois este pode ser um fator determinante para o desempenho das vacas em lactação

O crescimento e o desenvolvimento da glândula mamária (figura 2) em novilhas leiteiras são cruciais para produtividade, sendo que o número de células epiteliais é o principal fator determinante para a produção de leite. A glândula mamária de uma novilha pode chegar a pesar 2 a 3 kg, sendo que 0,5 a 1 kg é considerado parênquima, o qual possui de 10 a 20% de células epiteliais, 40 a 50% de tecido conjuntivo e de 30 a 40% de tecido adiposo. Comparando com a glândula mamária de vacas em lactaçäo cujo peso pode chegar a 25 kg, o parênquima consiste em 40 a 50% de células epiteliais (ductos e alvéolos), 15 a 20% de lúmen, 40% de tecido conjuntivo e quase nenhum tecido adiposo.

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Figura 2 – Esquema da glândula mamária  e úbere de uma novilha

Estudos sobre o crescimento compensatório vêm indicando que alternar, durante 90 dias, o consumo de energia em 25 a 30% abaixo do recomendado pelo National Research Council (NRC), seguido de uma realimentação, durante 60 dias, com 20 a 30% acima do consumo de energia recomendado, pode ter efeitos positivos sobre a composição dos tecidos mamários e sobre a produção futura de leite.

Os efeitos do crescimento compensatório durante a fase de novilhas e a produção futura de leite foram estudados. Maior eficiência para produzir leite na primeira lactação foi observada em novilhas que receberam a partir de oito meses de idade, durante cinco meses, uma dieta restrita (valores 15% abaixo das recomendações do NRC) e depois realimentadas por dois meses com dieta 40% acima. Entre 15 a 17 meses de idade, essas novilhas foram novamente submetidas, durante cinco meses, à outra restrição alimentar, e uma realimentação por mais dois meses, visando o parto por volta dos 25 meses de idade.

O crescimento compensatório influenciou positivamente a produção de leite de novilhas leiteiras que aos 11 meses de idade sofreram restrição no consumo em 70% menos energia na dieta por três meses, seguido de dois meses com a realimentação de 130% a mais do recomendado pelo NRC. Possivelmente isto foi devido a maior concentração de DNA, RNA, proteína e menor teor de lipídeos em mg/g de tecido mamário analisado com 30 dias de lactação. A concentraçäo de RNAm da ßcaseína no tecido mamário foi 1,5 vezes maior para novilhas que sofreram restrição e a porcentagem de caseína no leite também aumentou 2,02 para 2.37% Antes do período de restrição, as novilhas receberam por dois meses uma dieta com 130% acima do recomendado para oito meses de idade. Cada molécula de caseína sintetizada na glândula mamária depende fortemente da concentração de RNAm da caseína acumulado no tecido mamário. Alternando as fases de restrição no consumo de energia e realimentação no manejo de novilhas do crescimento ao parto, é possível o aumento de até 150% do RNAm da ß-caseína no tecido mamário, 30 dias do pré parto das novilhas que tiveram restrição. A expressão do gene da caseína durante o final da gestação aumentou em aproximadamente 40% em relação ao grupo controle. Houve maior porcentagem de caseína leite, mas a porcentagem de proteína não alterou. As primíparas produziram 21% mais leite e na segunda lactação 15% a mais. As atividades das RNA polimerase I e II foram maiores nos tecidos mamários das novilhas que sofreram restrição alimentar. Este aumento foi estimulado pelo crescimento compensatório o qual interferiu na transcrição do gene (proteína do leite) nas células mamárias.

Frequência de ordenha e produção de leite em vacas leiteiras (parte 1)

Rafael Achilles Marcelino

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A produção leiteira, bem como outras atividades relacionadas à produção de alimentos, deve procurar constantemente a eficiência. A pressão crescente dos custos leva os produtores à busca pelos ganhos de escala, tanto com relação à produção em geral como também com relação a cada um dos fatores de produção.

Verifica-se que os produtores, principalmente os grandes, estão cada vez mais tecnificando suas propriedades e aumentando suas participações no mercado. Prova disto é que os 100 maioresprodutores brasileiros em 2014 produzíram, em media;  5,25% mais do que os 100 maiores de 2015.

Em paralelo, estes produtores buscam também o aumento de produtividade como, por exemplo. por unidade de área, por custos de instalações, por empregado e por animal. Desta forma, os custos fixos são diluídos e diminuem sua partícipação no custo final do litro de leite.

Glândula mamária

A glândula mamária é uma glândula multicelular epitelial cuja função primordial é a transferência de nutrientes e imunidade para o neonato, sendo assim fundamental para a estratégia reprodutiva dos mamíferos. Vale ressaltar que a intensa seleção genética sobrecarregou esta estrutura que além de cumprir com sua função primordial, produz leite excedente, que serve de alimento para o homem.

Estrutura anatômica

O úbere da vaca é formado por tecido conjuntivo (estroma) e tecido glandular (parênquima). São quatro quartos funcionalmente separados compostos por glândulas mamárias distintas, drenadas por seus respectivos tetos, totalmente independentes. As do lado esquerdo são separadas do direito pelo ligamento suspensório medial. Já as do mesmo lado são separadas pela membrana delgada (Figura 01).

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Figura 1 – Estrutura anatômica do úbere

Os quartos anteriores, normalmente, pesam cerca de dois terços dos quartos posteriores, o que significa maior produção e capacidade de armazenamento nestes. O parênquima é formado pelas células epiteliais secretoras de leite. Este tecido secretor é representado pelos alvéolos (Figura 02). Cada conjunto de alvéolos drena para um único ducto menor, e é circundado por tecido conjuntivo, formando um lóbulo. O agrupamento de vários lóbulos forma um lobo, que é drenado por um ducto maior que se comunica com a cisterna da glândula.

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Figura 2 – Alvéolo mamário

Transporte de nutrientes

Grande quantidade de nutrientes é requerida para a síntese de leite. O sistema vascular arterial é o responsável por suprir a glândula mamária com os precursores para a síntese do leite. Estima-se a passagem de, aproximadamente, 500 litros de sangue pela glândula mamária para produzir cada litro de leite.

As células secretoras captam os precursores do leite do sangue, através das membranas basal e lateral, e os componentes do leite são secretados via membrana apical para o lúmen do alvéolo, principalmente a lactose. Ocorre também a migração de água do sangue para o alvéolo mantendo a pressão osmótica estável.

Mecanismo fisiológico

A síntese e a secreção do leite são processos complicados, que refletem a complexidade da estrutura do tecido secretor. O leite é secretado continuamente pelas células epiteliais para o lúmen alveolar e para o sistema de ductos. Uma vaca com alta produção pode produzir e armazenar aproximadamente 20 kg ou mais de leite entre cada ordenha. Cerca de 80% do leite secretado fica armazenado dentro do alvéolo, que é circundado por células mioepiteliais. Quando ocorre a contração destas células, sob o estímulo da ocitocina, o leite é expulso para os ductos maiores, e, daí, para as cisternas da glândula e do teto.

A produção de leite está condicionada a uma série de fatores vinculados à nutrição, à reprodução, à saúde, à ambiência e, em última análise, ao número de células ativas no epitélio mamário e sua atividade metabólica.

Foi-se avaliado o desenvolvimento da glândula mamária durante a lactação, e as implicações para o aumento da produção. A população de células secretoras mamárias é determinada pelo equilíbrio entre proliferação celular e a apoptose. Segundo a pesquisa, a frequência de ordenhas reduz as perdas de células secretoras. O estudo das fases de desenvolvimento mamário permitiu a observação da importância da amamentação ou da ordenha no início da lactação. É nesta fase que ocorre a diferenciação e proliferação das células secretoras. Se a remoção do leite não ocorre, o crescimento é impedido. De acordo com Dahl (2005), duas explicaçöes fisiológicas justificam a influencia da remoção frequente do leite sobre a produção: a pressão intra mamária (PIM) e a proteína reguladora da secreção do leite (PRSL). O leite acumulado aumenta a PIM que comprime as células secretoras reduzindo o metabolismo celular e a síntese do leite. A PRSL, acumulada na glândula maImagemmária, contribui para a supressão da produção de leite. Ambas, PIM e PRSL podem ser diminuídas com o aumento da frequência de ordenhas, aumentando, assim, a produção de leite. Da mesma forma, verificou-se que a secreção de prolactina é estimulada, e o aumento deste hormônio, no início da lactação também estimula o aumento do número de células secretoras na glândula mamária. A ordenha extra no início da lactação conffasta com os outros métodos de indução do aumento na produtividade, uma vez que o efeito permanece após o termino do tratamento.

No próximo artigos vamos discutir sobre a frequência e o intervalo de ordenhas, não perca!