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A TRAÇA-DA-BATATA

Gabriella Lima Andrade de Sousa

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

A traça-da-batata (Phthorimaea operculella) é uma das pragas mais importantes na cultura da batata (Solanum tuberosum L.). É a praga que causa mais estragos e prejuízos na batata, em particular na armazenada, podendo originar perdas superiores a 70%, desvaloriza os frutos atacados e compromete a conservação, mesmo que por períodos relativamente curtos. Embora os estragos se observem principalmente no armazém, a praga inicia o seu desenvolvimento nos tubérculos ainda no campo, podendo também atingir as folhas e o caule, sendo da máxima importância a adoção de uma estratégia de luta integrada desde a plantação até ao armazenamento.

Os adultos têm aproximadamente 10 a 12 milímetros de comprimento, possuem abdômen cinzento e antenas compridas. As asas são estreitas, as anteriores são cinzento-amareladas com pequenas manchas negras, enquanto as posteriores são cinzentas e possuem sedas compridas (figura 1). Os ovos têm forma oval, são lisos e de cor branca leitosa. As posturas são isoladas, uma fêmea pode pôr até 195 ovos durante 10 dias, com uma viabilidade de 46,8%. As larvas com cerca de 10 a 12 mm são brancas rosadas, têm capsula cefálica castanho escura e alguns pontos negros (figura 2). O casulo é esbranquiçado, muito estreito e atinge cerca de 12 milímetros de comprimento.

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Figura 1: Mariposa da traça-da-batata (Phthorimaea operculella)

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Figura 2: Lagarta da traça-da-batata (Phthorimaea operculella)

 

As condições ótimas para o seu desenvolvimento são temperatura acima dos 10ºC, com o ótimo aos 25ºC, associada com tempo seco. No campo, os adultos acasalam, iniciando as posturas em 24 horas. As fêmeas entram pelas fendas do solo e depositam os ovos (figura 3), preferencialmente, nos tubérculos da batata junto aos olhos, mas podem fazê-lo também na parte aérea da planta. Após um período de 3 a 6 dias, as larvas eclodidas, passam a alimentar-se ora da parte aérea das plantas, vivendo como “mineiras” nas folhas originando galerias, ora do tubérculo.

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Figura 3: Fendas em camalhões, que facilitam o ataque de lagartas e postura por adultos da traça, em tubérculos sadios, em seu interior.

As larvas que eclodem sobre o tubérculo, quer ainda em campo quer no armazém, penetram para o seu interior alimentando-se inicialmente das camadas mais superficiais e cavando galerias sinuosas para o centro, atirando os excrementos para o exterior. Quando completam o seu desenvolvimento larvar (15 a 20 dias), as larvas abandonam as galerias para formar pupas no solo ou, no caso de batata armazenada, é comum encontrar-se pupas aderentes à parte exterior do saco ou nas estruturas de armazenamento. A duração do estado de pupa é de 10 a 30 dias dependendo das condições climáticas. Em locais mais quentes, como nos armazéns, o ciclo repete-se durante o inverno. No campo a traça permanece sob a forma de pupa enterrada junto a restos, emergindo os primeiros adultos geralmente nos meses de março e abril.

A traça-da-batata é uma praga de difícil controle e, por essa razão, devem ser tomadas algumas medidas preventivas, quer no campo, quer no armazém, para diminuir a importância dos ataques. Em campo, deve-se destruir tubérculos, batateiras atacadas e plantas solanáceas hospedeiras da praga, efetuar rotações de cultura, não fazer o plantio em parcelas ou próximo de campos que, na campanha anterior, apresentaram ataques elevados, utilizar batatas de semente saudável, plantar a uma profundidade de cerca de 10 centímetros, evitar formação de fendas no solo, dentre outras medidas.

Já os armazéns, devem ser limpos e desinfetados antes da entrada da nova colheita. A desinfeção pode ser feita, por exemplo, queimando 30 gramas de enxofre em pó por metro cúbico de volume do armazém. O armazém deve ficar fechado durante dois dias e só após o seu arejamento é que podem ser armazenadas as batatas. Além disso, deve-se optar por um local fresco, arejado e escuro, como também fazer o isolamento de janelas e portas com rede plástica ou metálica muito fina de modo a impedir a entrada de adultos de traça e a consequente reinfestação do armazém.

Diante do artigo apresentado, nota-se a importância de se conhecer as características, modo de sobrevivência e como evitar os prejuízos causados pela traça da batata. É importante que o produtor busque informações corretas e um profissional capacitado para o auxílio sobre o controle desta praga no seu cultivo.

MURCHA BACTERIANA DAS SOLANÁCEAS

Gabriella Lima Andrade de Sousa

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

As murchas vasculares são causadas por bactérias que tipicamente colonizam o sistema vascular impedindo o transporte de água. São doenças graves de ocorrência generalizada, que normalmente causam a morte da planta. Podem ocorrer, principalmente, em regiões de clima tropical e subtropical.

A murcha bacteriana, é uma doença causada pela bactéria Ralstonia solanacearum. É considerada a doença mais importante da batata e uma das mais importantes de outras solanáceas como o tomate, a berinjela, o pimentão e as pimentas, além de afetar um amplo número de hospedeiras de diversas outras famílias botânicas.

A murcha dos folíolos é o sintoma mais comum nas plantas atacadas, ocorrendo mais rapidamente nas plantas jovens. Inicialmente, as plantas infectadas conseguem recuperar a turgescência nas horas mais frias do dia e durante a noite. As folhas de um lado da planta murcham, enquanto as folhas do outro lado aparentam estar normais. Folhas afetadas se tornam verde-claras a amarelas, ocasionalmente ficando escaldadas ou formando áreas necróticas entre as nervuras ou nas suas margens. Contudo, alguns duas após o surgimento dos sintomas iniciais, a murcha atinge toda a planta de forma irreversível. Diferentes sintomas podem se desenvolver dependendo da planta hospedeira, cultivar, estágio de crescimento e condições de ambiente, como temperatura. Em tomate, pode ser observado a descoloração vascular e a formação de raízes adventícias na base do caule (figura 1). Em batata e gengibre pode ocorrer o apodrecimento do tubérculo (figura 2).

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Figura 1: Descoloração vascular e formação de raízes adventícias na base do caule, causada por Ralstonia solanacearum

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Figura 2: Sintoma de apodrecimento do tubérculo de batata, causada por Ralstonia solenacearum

Devido às dificuldades de controle da murcha bacteriana por métodos tradicionalmente utilizados em outras doenças de plantas, como a aplicação de produtos químicos, somente a adoção conjunta de várias medidas poderá viabilizar a produção econômica em áreas onde a murcha já é um problema.

De maneira geral, devem-se evitar terrenos mal drenados, sujeitos a encharcamentos ou que recebam água proveniente de campos contaminados, além de escolher áreas que não tenham sido plantadas com solanáceas no último ano, ainda que a sanidade do cultivo anterior tenha sido satisfatória.

É importante ressaltar que algumas outras práticas também podem evitar a doença, como utilizar batata-semente certificada, variedades resistentes, tomar os devidos cuidados nos tratos culturais e eliminar as plantas no início do aparecimento dos sintomas.

Por todo o exposto, nota-se a importância de se conhecer os sintomas e problemas causados pela Murcha bacteriana em solanáceas. De maneira geral, as medidas a serem adotadas são preventivas e visam evitar ou retardar a ocorrência da doença, não realizando o plantio em épocas de temperatura e umidade elevadas. O controle químico não é recomendado para esta doença.

A GRANDE FOME DA BATATA, UMA DOENÇA QUE ENTROU PARA HISTÓRIA

Lucas Machado

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

 A batata foi introduzida na Irlanda na segunda metade do século XVI e se tornou uma das principais fontes de alimentação da população mais pobre, alimento extremamente rico em energia, sendo fonte de vitaminas e minerais. A grande fome que ocorreu na Irlanda no século XIX (1845-1852) matou um milhão de pessoas e forçou a emigração de outros milhões de irlandeses.  De acordo com historiadores, a contaminação de um grande volume de batatas impossibilitou seu consumo e matou de fome os irlandeses.

Causado pelo fungo Phytophora infestants, o míldio é uma das doenças de maior importância para a cultura da batata. Fungo de rápida disseminação e um elevado potencial destrutivo, que pode devastar uma lavoura em poucos dias e propagar a doença em toda a produção armazenada.

 A doença desenvolve-se melhor em dias de clima ameno e húmido, noites frescas e dias quentes favorecem o seu aparecimento, tendo como principal via de disseminação o vento, capaz de levar a doença até longas distâncias do foco inicial. Temperaturas acima dos 30ºC são desfavoráveis à doença, entretanto o patógeno se mantem vivo e quando as condições climáticas voltam a ser favoráveis ele reinicia o seu ciclo de infecção.

Os primeiros sintomas dessa doença podem ser facilmente detectados, como: o aparecimento de pequenas manchas, inicialmente descoloradas e de aspecto oleoso, passando depois a acastanhadas (figura 1). Na face abaxial (parte inferior) da folha e ao redor da mancha forma-se um esbranquiçado.

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Figura 1 – Sintoma da doença na folha da cultura da batata

O caule da planta pode apresentar manchas na coloração castanho escuro (figura 2), brilhantes. Em estados mais avançados essas machas rodeiam completamente o caule e nessa situação a planta pode murchar repentinamente.

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Figura 2 – Sintoma da doença no caule da cultura da batata

Os tubérculos infectados pela doença ficam com coloração superficial irregular. As lesões tornam-se necróticas e secas, de cor castanha que penetram desde a superfície do tubérculo até seu interior, sendo oportunidade ao ataque de outras doenças (principalmente bacterianas), que acabam ocasionando um cheiro desagradável, que a podridão seca típica do míldio não acarreta (figura 3).

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Figura 3 – Tubérculo infectado pela doença

A propagação do míldio através dos tubérculos pode ocorrer de duas maneiras: por meio dos tubérculos guardados para servirem como semente para plantações posteriores ou através de tubérculos de plantações anteriores deixados no solo e que podem estar infectados.

 A rápida disseminação da doença dificulta o combate eficaz quando ela já se encontra instalada na cultura. Desta forma, o melhor combate é a prevenção. As principais medidas preventivas são: usar batata de semente certificada, cultivar variedades menos susceptíveis à doença, realizar a amontoa (aproximação de terra, em ambos os lados da fileira de plantas, formando um camalhão com cerca de 20 cm de altura, visando proteger os tubérculos contra a exposição direta dos raios solares), pois esta diminui o risco de infecção dos tubérculos e eliminar os restos de cultura.

O controle químico deve ser utilizado como estratégia preventiva, combinando fungicidas com diferentes mecanismos de ação para minimizar o aparecimento de resistências. A utilização de defensivos sistémicos deve ser feita de forma cuidadosa, nunca fazendo mais de 2 a 3 aplicações por ciclo de cultura.