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3,0 Kg a mais de leite sem custo?

Pesquisadores da Universidade de Guelph-Canada examinaram a dieta de 22 rebanhos leiteiros durante uma semana e concluíram que para cada aumento de 0,5 pontos na variação de energia líquida de lactação houve uma queda de 1 kg no consumo de matéria seca, e como consequência uma queda de 3 kg na produção de leite. A pergunta que devemos responder é a seguinte: como diminuir a variação da dieta oferecida e recuperar os 3 kg perdidos?

         O primeiro ponto que devemos nos atentar é que existe uma ferramenta que pode ser utilizada na fazenda para recuperar os 3 kg perdidos, esta ferramenta é o separador de partículas da Universidade da Pensilvânia (Peneira Penn State). Para realizar este teste devemos coletar 10 amostras equidistantes no cocho dos animais. Para cada amostra realizamos o teste da peneira e anotamos a porcentagem de alimento que fica retida na peneira de cima, na do meio e na de baixo. No final do teste teremos como exemplo a Tabela 1. Podemos verificar que a média de partículas retidas na primeira peneira foi de 4,2% contra 30,5% na peneira do meio e 64,3% na peneira de baixo. Agora com os 10 valores de cada peneira podemos calcular o desvio padrão por tipo de peneira. Este valor de desvio padrão dividido pela média nos dá o coeficiente de variação. O coeficiente de variação da peneira de cima e do meio estão acima da meta de 5%, o que fazer?

         Identificamos que nesta fazenda existe a possibilidade de recuperar os 3 kg perdidos, pois a qualidade da mistura não esta boa. Os grandes vilãos que normalmente causam uma má mistura são:

         – ordem incorreta de carregamento do vagão misturador,

         – sobre carregamento do vagão,

         – muito ou pouco tempo de mistura,

         – facas do misturador cegas ou quebradas,

         – desnivelamento na hora de carregar os ingredientes no misturador

         – utilização de subprodutos em grandes pedaços que não misturam bem,

         – entre outros.

         Por que uma variação na qualidade da dieta oferecida causa tanto prejuízo? Simples, um dia a vaca X come uma dieta com 16% de Proteína Bruta (PB), no outro dia a fazenda estava sem um funcionário e o próprio funcionário da alimentação teve que ajudar na ordenha, portanto teve que fazer um trato corrido e não teve tempo de deixar a dieta misturar. A dieta oferecida continha 13% de PB, fica fácil de compreender correto porque neste dia a vaca X vai dar menos leite correto?

Certamente uma auditoria no sistema de alimentação poderá ajudar o produtor a recuperar algum leite perdido, a pergunta que devemos fazer é quando que iremos recuperar na nossa fazenda ?

Tabela 1 – Valores da dieta que ficaram retidos na peneira de cima (topo), do meio (meio) e no fundo (fundo) durante uma auditoria do sistema de alimentação em uma fazenda leiteira.

Amostra

%Topo

% Meio

% Fundo

1

2,5

30,6

65,9

2

3,6

27,4

67,9

3

4,3

30,1

64,3

4

2,2

33,1

63,6

5

4,7

32,1

61,6

6

3,8

31,9

63,5

7

4,8

31,8

63,2

8

4,1

30,3

65,9

9

7,6

27,6

64,7

10

4,7

31,6

62,8

Média

4,2

30,6

64,3

DP

1,5

1,9

1,8

CV

34,7

6,1

2,9

DP = Desvio Padrão

CV = Coeficiente de variação = DP/Média

Foto da Penn State

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Minha silagem de milho esta muito ou pouco picada? E os grãos da silagem, estão processados o suficiente? Quais ferramentas posso utilizar para ajudar a confeccionar uma silagem melhor em 2014?

Certamente estas são perguntas que devem ser feitas no momento de ensilagem do milho, isto mesmo, quando a carreta estiver descarregando o material picado no silo. É neste momento que devemos estar presente com duas ferramentas: peneira da Universidade da Pensilvânia (Penn State Box) e um balde com água.

Para confeccionar:

A peneira da universidade da Pensilvânia irá permitir o ajuste do tamanho de corte da ensiladeira. Esta peneira consiste em um grupo de 3 peneiras que são acopladas verticalmente, uma em cima da outra. A peneira com poro maior (19 mm), a peneira com poro médio (8 mm), a peneira com poro pequeno (1.18 mm) e a parte de baixo que coleta o material (Figura 1). No momento da ensilagem uma pessoa deve estar coletando uma amostra (200 gramas, aproximadamente duas mãos cheias) do material picado e colocando na peneira. A mesma pessoa deve chacoalhar a peneira 40 vezes, 5 vezes por cada lado com uma repetição (Figura 2). Após este processo o material contido em cada peneira deve ser pesado. Como exemplo, podemos observar uma carreta com o material picado corretamente (Carreta 4), a próxima em que o material esta muito longo (Carreta 5) e a seguinte após amolar as facas da picadeira (Carreta 6) na tabela 1.

Este é a primeira ferramenta que deve ser utilizada em cada carreta que é descarregada no silo. O correto tamanho de partícula da silagem permite um melhor perfil de fermentação e também que os animais ruminem quando o material for oferecido aos mesmos.

A segunda ferramenta que também deve ser utilizada em cada carreta que é descarregada no silo é a análise do processamento dos grãos da silagem. Para isto, necessitamos de um balde com água preenchido até a metade. Colete novamente duas mãos cheias do material picado da carreta e coloque no balde com água. Mexa o material e vá removendo o material que está boiando (planta) até que o balde contenha somente os grãos. Neste momento, jogue toda a água fora e coloque os grãos em uma superfície branca. Compare com a figura 3. Podemos visualizar na figura 3 que os materiais possuem processamentos distintos: o material da esquerda menos danificado e o da direita mais danificado. A recomendação é que o milho de cada carreta esteja o mais próximo possível com o material da direita.

Verificando se o processo de ensilagem foi correto:

Pronto, a silagem esta confeccionada, conseguimos atingir as metas de comprimento de corte e processamento de grãos em quase todas as carretas e fechamos o silo. O que eu posso medir para verificar que realmente o grão da silagem esta bem processado e não errei na minha avaliação visual? Nesse ponto podemos coletar uma amostra da silagem e enviar ao laboratório para análise de processamento de grãos (KPS). Nesta análise o laboratório seca a silagem e passa a mesma por uma peneira de 4.75 mm. No material que passou na peneira (menor que 4.75 mm), uma análise de amido é realizada. O objetivo é que a silagem contenha mais de 70% de amido no material que passou na peneira de 4.75 mm (Tabela 2). Como exemplo temos uma silagem com KPS de 80%, isto significa que no material enviado ao laboratório (silagem de milho), da quantidade que passou na peneira de 4.75 mm (portanto menor que 4.75 mm), 80% era amido, portanto uma silagem com processamento de grãos excelente!

Uma ferramenta adicional para verificar que o processo de ensilagem foi realizado com sucesso é a determinação de pH e perfil de ácidos graxos da silagem. Para utilizar esta ferramenta uma amostra da silagem é enviada ao laboratório e as seguintes análises são realizadas: pH, ácido lático, ácido acético, ácido propiônico, ácido butírico, ácidos totais, amônia (Tabela 3). A comparação do resultado da silagem produzida com a meta apresentada pode gerar pontos de oportunidade para a confecção da silagem do próximo ano.

Medindo a qualidade da silagem nos animais

Talvez o local mais importante para medir a qualidade da silagem produzida na fazenda seja os animais. A silagem no silo não é a mesma que chega ao rúmen do animal devido a vários fatores: manejo de silo, tempo entre desensilagem e oferecimento, qualidade da mistura, espaço de cocho, etc… Portanto, como nosso objetivo é a manter na fazenda animais saudáveis e produtivos, os mesmos são um excelente material para verificar se a silagem foi bem confeccionada.

A primeira ferramenta que pode ser utilizada é a porcentagem de amido nas fezes. Esta ferramenta permite ao técnico verificar se o amido que o animal ingeriu foi utilizado ou foi excretado. A meta para vacas leiteiras é que menos de 5% de amido esteja presente nas fezes. No Brasil, temos fazendas com alta produção, animais saudáveis, sem a utilização de grão úmido na dieta, com fezes atingindo esta meta. Portanto, este valor apesar de ser uma meta americana, também é atingível em nossas fazendas.

         A segunda ferramenta que pode ser utilizada na fazenda é a observação de ruminação dos animais. Em condições normais, metade dos animais no lote devem estar ruminando, exceto quando estiverem comendo ou sob stress térmico.

         Impacto econômico:

         Podemos visualizar na Tabela 4 a comparação econômica entre duas silagens com processamentos distenso de grãos. A silagem A com o grão de milho processado corretamente e a silagem B com o grão de milho processado incorretamente. Para esta simulação vamos utilizar os seguintes parâmetros: 600 kg peso vivo, 80 DEL, 3,5% Gordura, 30 kg de leite. Podemos observar que quando a silagem possui grãos que foram danificados no processo de ensilagem temos a expectativa de aumentar a produção das vacas em aproximadamente 1 kg de leite, esta produção é refletida em uma maior retorno sobre custo alimentar (RSCA) com a utilização da silagem A. Este valor pode ser utilizado para uma decisão sobre processar ou não o grão da silagem. Como exemplo temos uma fazenda com 100 vacas. Assumindo aumento de 1 kg de leite/vaca/por com o processamento temos 100 kg. No ano temos R$36.500,00 (assumindo preço do leite a R$1). Vamos simplificar e adotar R$35.000,00. Se o valor que se paga para o processamento do milho no momento da ensilagem for menor que R$35.000,00 temos que adotar esta prática.

Conclusão:

         Como a qualidade da silagem de milho impacta diretamente a quantidade de concentrado utilizado na dieta (quanto melhor a silagem menos concentrado), devemos utilizar ferramentas que nos permitam produzir a melhor silagem possível na fazenda. Visto que alimentação é o maior custo para produção de leite, estamos focando exatamente na variável de maior impacto no sistema.

Figura 1 – Peneiras da Universidade da Pensilvânia – Ferramenta muito útil para determinar o correto tamanho de corte da silagem de milho

Figura 2 – Movimentos a serem realizados pela pessoa responsável pela determinação do tamanho de corte no silo. Cada lado da peneira necessita de 5 movimentos com uma repetição, totalizando 40 movimentos.

 

Figura 3 – Resultado do processo de remoção da forragem do material picado. Três processamentos de grãos podem ser visualizados, somente o material da direita está processado corretamente.

 

 

Tabela 1 – Exemplo de amostragem de milho picado em três carretas. Carreta 4 dentro da meta, Carreta 5 acima da meta (muito longo), Carreta 6 dentro da meta

 

Carreta 4

Carreta 5

Carreta 6

Meta

Peneira 19 mm

10 g/ 5%

20 g/ 10%

8 g/ 4%

3 a 8%

Peneira 8 mm

120 g/ 60%

150 g/ 75%

125 g/ 62%

45 a 65%

Peneira 1.18 mm

60 g/ 30%

20 g/ 10%

50 g/ 25%

20 a 30%

Parte baixo

10 g/ 5%

10 g/ 5%

17 g/ 9%

< 10%

Total

200 g

200 g

200 g

100%

Tabela 2 – Meta para análise de processamento de grãos da silagem (KPS)

% de amido no material < 4.75 mm

KPS

> 70

Excelente

50 a 70

Adequado

<50

Ruim

Tabela 3 – Meta de perfil de fermentação para silagem de milho

Parâmetros

Meta

%MS
  Ácido Lático

3-6%

  Ácido Acético

< 2%

  Ácido Propiônico

0-1%

  Ácido Butírico

< 0.1%

 
pH

< 4

Amônia (% Nitrogênio)

< 5%

Tabela 4 – Comparação entre o efeito do processamento de grãos da silagem na produção de leite.

 

A

B

EM (kg leite/dia)

30,87

29,92

RSCA, R$/dia

20,87

19,92

Custo, R$/dia

10

10

Silagem A: silagem com grãos processados corretamente (KPS > 70%).

Silagem B: silagem com mau processamento dos grãos (KPS 45%).

Composição da dieta (%MS): 10 kg silagem de milho, 5 kg milho moído fino, 2,5 kg caroço de algodão e 3 kg de farelo de soja.

EM: Energia metabolizável disponível para produção de leite

RSCA: Retorno sobre custo alimentar.

O que eu posso fazer para aumentar a gordura do leite do meu rebanho?

Muito comum nesta época do ano é o leite com baixa porcentagem de gordura. Algumas explicações para este fenômeno:

– o produtor aprendeu a manejar pasto, desta maneira o pasto consumido pelos animais estão com baixa fibra e com excelente digestibilidade, isto faz com o que os animais ruminem menos.

– tradicionalmente grande parte do leite está sendo produzido por animais a pasto neste momento do ano. O pasto contém uma grande quantidade de gordura insaturada, que é um grande responsável pela queda da gordura do leite.

– as vacas estão em stress térmico, o que faz com que o animal gaste mais tempo expirando o ar quente e consequentemente menos tempo ruminando, o que gera menos saliva e como resultado queda na gordura do leite.

– animais que estavam em sistema confinado durante a época seca do ano recebiam toda a dieta misturada (dieta completa). Agora no pasto muitos sistemas oferecem uma grande quantidade de concentrado (separado do volumoso). Esta mudança no manejo leva a uma queda do pH do rúmen que irá resultar em menos gordura no leite.

         Estes fenômenos estão presentes em muitas propriedades brasileiras. A pergunta que o produtor faz neste momento é: o que eu posso fazer para aumentar a porcentagem de gordura no leite das minhas vacas? Existem algumas ferramentas e uma que iremos discutir brevemente neste artigo é o aumento da diferença cátion-aniônica da dieta (DCAD) para um valor mais positivo. O DCAD é o resultado da equação ((Na + K) – (Cl + S)). Normalmente os nutricionistas estão preocupados com o DCAD antes do parto para causar uma acidez no sangue do animal e aumentar a captação de cálcio do próprio corpo do animal, desta maneira este animal estará mobilizando quantidade suficiente de Ca no pós-parto. Portanto queremos um DCAD negativo ((Cl + S) > (Na + K)) neste momento. Pesquisas recentes têm demonstrado que o DCAD positivo ((Na + K) > (Cl + S)) tem ajudado animais que estão com baixa porcentagem de gordura no leite a aumentar a porcentagem deste sólido. Portanto, para animais em lactação queremos um DCAD positivo.

         Mas como o DCAD pode ajudar minhas vacas a aumentar a gordura do leite? Sabemos que dentre os fenômenos causadores de baixa gordura no leite, a quantidade de gordura insaturada que sai do rúmen certamente tem um papel muito importante. Com a utilização de DCAD positivo a quantidade de gordura insaturada que deixa o rúmen é menor. Um experimento publicado este ano utilizou doses crescentes de DCAD com o aumento de potássio da dieta. Quanto maior a quantidade de potássio maior foi o pH e menor foi a quantidade de gordura insaturada produzida.

         Em outro estudo em que o autor subiu o DCAD modificando o potássio de 1.2% para 2% da matéria seca da dieta, a gordura do leite subiu 0,4 pontos percentuais. Estes resultados de experimentos realizados em Universidades agora também estão sendo reproduzidos em rebanhos comerciais. Em um rebanho comercial americano a gordura do leite estava em 3.3%. O nutricionista decidiu balancear a dieta para produzir um DCAD positivo com ajuda do potássio e em 14 dais a gordura do leite estava em 3.7%.

         Certamente o primeiro ponto que o nutricionista deve focar é verificar qual o DCAD da dieta das vacas em lactação. Uma amostra da dieta enviada ao laboratório pode resolver esta questão. Em seguida, o nutricionista pode recomendar com segurança a utilização de um DCAD positivo como uma ferramenta para tentar aumentar a gordura do leite do rebanho.

Importante que o aumento do DCAD deve ser feito com o aumento do k, geralmente chegando a 2% do consumo de matéria seca do animal. Recomendações de DCAD entre +350 e +450 meq/kg de MS certamente podem ajudar o pH do rúmen o que resultará em maior quantidade de gordura no leite. Não se sabe ainda se o responsável pelo aumento da gordura do leite é o DCAD em si ou simplesmente o aumento do potássio. Outro ponto importante é que a fonte de potássio utilizada parece ter um impacto também. O aumento de gordura do leite mais proeminente foi observado quando a fonte de potássio utilizada era carbonato de potássio.

Portanto, a utilização de DCAD positivo com o aumento do potássio pode ser uma ferramenta disponível para tentar aumentar a gordura das vacas em lactação.