COMPLEXOS DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS DE BEZERROS (CDRB)

Giane Lima Nepomuceno

Universidade Federal de Lavras – 3rlab

O Complexo das Doenças Respiratórias de Bezerros (CDRB) é composto por uma única entidade clínica, a broncopneumonia, que se refere à inflamação dos bronquíolos, parênquima e pleura em decorrência da invasão pulmonar por agentes infecciosos, bacterianos e virais, transportados pelo ar. Fatores ambientais como alta taxa de lotação, poeira e ventilação inadequada funcionam como agentes depressores do sistema imune do animal e respectivamente, podem propiciar o desenvolvimento de agentes patogênicos entre os animais. Na CDRB, pode inicialmente ocorrer instalação de um agente viral que afeta o sistema imunológico, criando condições favoráveis para colonização do trato respiratório por bactérias (agentes secundários). Destaca-se como agentes envolvidos na CDRB (tabela 1).

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Tabela 1: Agentes infecciosos associados à etiologia do Complexo das Doenças Respiratórias dos Bezerros – CDRB.

1Principais invasores primários; 2Invasores secundários (oportunistas); 3Como agentes isolados, são capazes de provocar pneumonia intersticial aguda grave.

O primeiro estágio da CDRB é a doença subclínica. O funcionamento dos mecanismos de defesa permite que o animal controle o desenvolvimento dos agentes patogênicos sem ocorrer reação imunológica intensa e consequentemente, a disfunção pulmonar é mínima ou inexistente. Já no segundo estágio, a resposta do sistema respiratório à reação inflamatória começa a limitar o animal. Entretanto, mecanismos compensatórios corrigem a perturbação das trocas gasosas e promovem adaptações funcionais (vasoconstrição, aumento do tônus dos músculos respiratórios) para melhor eficiência respiratória. No terceiro estágio, o animal é mais afetado pelas disfunções e pelas lesões causadas pela resposta inflamatória (comprometimento da integridade dos tecidos) do que propriamente pelos agentes patogênicos. Por fim, no quarto estágio têm-se lesões pulmonares provocadas pelos agentes patogênicos, pelas enzimas proteolíticas e pelos radicais livres liberados pelas células inflamatórias que podem ameaçar a sobrevivência do animal (RADOSTITS, 2007) (figura 1).

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Figura 1: (A) Pulmão de bezerro (surto 18) com diagnóstico de pneumonia enzoótica por vírus sincicial respiratório bovino mostrando consolidação das porções ventrais dos lobos cardíaco e apical. (B) Pulmão de bezerro com pneumonia enzoótica mostrando consolidação das porções ventrais dos lobos cardíaco e apical. A porção dorsal dos lobos diafragmáticos está armada, com impressão das costelas. (C) Lobos pulmonares consolidados de coloração avermelhada alternados com lobos normais dando um aspecto monteado ao parênquima. (D) Edema pulmonar evidenciado pela presença de espuma na traqueia.

 

É de extrema importância procurar recursos e diagnósticos em que se dispõe para solucionar os problemas relacionados ao CDRB em um rebanho entre ele:

  • Exame físico: Os animais devem ser observados frequentemente e, assim que qualquer alteração no comportamento, condição física e desempenho forem percebidos, deve-se realizar um exame clínico minucioso, em busca de sinais indicativos de comprometimento do trato respiratório. A inspeção, percussão, auscultação e olfação são métodos semiológicos de diagnóstico que, quando realizados de maneira correta, se tornam insubstituíveis por quaisquer exames complementares, além de serem eficazes na avaliação da gravidade das lesões pulmonares.
  • Hemograma: quando realizado em um ou mais animais, pode ajudar a determinar o estágio de evolução da doença e, algumas vezes, o principal agente causal, se bacteriano ou viral;
  • Secreções respiratórias: os “swabs” e os lavados podem ser utilizados no isolamento de agentes infecciosos, além de exame citológico e determinação da sensibilidade antimicrobiana.
  • Toracocentese: quando houver suspeita de efusão pleural;
  • Radiografia e Ultrassonografia: podem auxiliar na avaliação da gravidade das lesões pulmonares, efusões pleurais e aderências.
  • Necropsia: em surtos em que o diagnóstico é duvidoso, permite a colheita de material para determinar o agente causal e a avaliar a eficácia dos tratamentos prescritos.
  • Sorologia: quando houver suspeita de pneumonia intersticial viral;
  • Exame de fezes: no caso de suspeita de dictiocaulose.

A cura bacteriológica depende da severidade da infecção e da natureza dos agentes. Nos casos mais avançados aonde a doença chega a evoluir para fibrose, aderências ou abscessos no tecido pulmonar, nenhum tratamento conseguirá corrigir satisfatoriamente o quadro (GAVA, 1999). O animal pode sobreviver, mas terá o desempenho comprometimento devido à redução da capacidade respiratória. Dessa forma, a eficiência para cura clínica está diretamente associada à agilidade na identificação de indivíduos doentes e na escolha da terapia antimicrobiana mais efetiva.

A prevenção das afecções do CDRB é absolutamente dependente do controle simultâneo dos fatores de risco relacionados aos animais, ao ambiente e manejo e aos patógenos. É bastante arriscado que se consiga obter uma redução significativa na incidência de problemas respiratórios em bezerros e, consequentemente, maior desempenho e rentabilidade do rebanho, quando a atenção se volta para o controle isolado de apenas um destes fatores. Lembrando que as doenças respiratórias frequentemente são a segunda maior causa de morbidade e mortalidade de bezerros, acompanhando as diarreias.

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COMO REALIZAR AMOSTRAGEM FOLIAR NO CAFEEIRO

Gabriel Castillo

Universidade Federal de Lavras-3rlab

Para que se possa almejar a sustentabilidade rural e atingir grandes produtividades na cafeicultura, realizar análise de solo e análise foliar em um laboratório de qualidade é um passo importante. Para melhor conhecer sua propriedade, o agricultor não deve conhecer apenas a fertilidade do seu solo. Além disso, é extremamente importante a avaliação do estado nutricional das folhas, por meio de análises foliares. Esta que tem como principal função auxiliar na identificação de deficiências e desequilíbrios nutricionais para que se possa corrigi-los.

A análise foliar, como foi dito acima, nos auxilia na identificação das deficiências e desequilíbrios minerais na planta. Esta é capaz identificá-los antes mesmo do aparecimento dos sintomas típicos, visíveis em nível de campo. Vale ressaltar que quando esses sintomas podem ser vistos a olho nu, nesses casos já atingiram níveis bastante prejudiciais ao cafeeiro e consequentemente a produção.

Basicamente, a análise foliar nos fornece uma avaliação do estado nutricional do cafeeiro e se o adubo aplicado foi capaz de atender as necessidades da planta, podendo contribuir na tomada de decisão sobre qual o melhor adubo a ser aplicado nas próximas adubações. Dessa maneira, a análise foliar é um complemento da análise de solo e deve ser tratada como uma prática essencial e rotineira na cafeicultura.

Procedimentos

  • Divisão da área: deve-se dividir o cafezal em glebas/talhões de no máximo 10 ha, agrupados basicamente por uniformidade em idade, espaçamento e variedade. É recomendado acompanhar a mesma divisão em glebas/talhões que se utilizou para realizar a amostragem de solo.
  • Em cada gleba/talhão, caminhando em zigue, selecionar ao acaso um ramo no terço médio da planta e nele coletar o 3° ou 4° par de folhas a partir da extremidade (figura 1). Para isso, não se deve contar o 1° par caso este tenha tamanho menor que dois cm.
  • Deve-se coletar no mínimo 100 folhas em cada gleba/talhão. As 100 folhas do talhão devem ser retiradas de pelo menos 25 plantas, coletando-as nos dois lados da planta.
  • As folhas coletadas devem ser colocadas em sacolas de papel limpas, devidamente identificadas e enviadas imediatamente para o laboratório. Entretanto, caso isso não possa ocorrer, deve-se lavá-las em água corrente, enxugar com água filtrada e secá-las cuidadosamente. Após isso, é recomendado armazená-las em baixa temperatura (2-4 ºC) na parte inferior da geladeira por no máximo 72 horas.
  • Para a coleta das folhas é extremamente importante que se respeite um intervalo de pelo menos 30 dias após uma ultima adubação de solo ou via foliar, evitando assim que as folhas cheguem ao laboratório com resíduos e comprometa a análise.

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Figura 1- Imagem ilustrativa indicando o local de onde deve ser realizada a amostragem foliar no cafeeiro.

Época para amostragem

A amostragem para análise foliar, em cafeicultura de sequeiro é realizada na fase chumbinho/chumbão, estágio antes da fase de expansão e granação. Sendo que esse período, geralmente, coincide com o mês de novembro até meados de dezembro. Sendo assim, deve-se respeitar um período de 30 dias como foi citado acima.

Na cafeicultura irrigada, recomenda-se que a análise foliar seja feita com maior frequência, em alguns casos bimestralmente. Entretanto, tanto para lavouras irrigadas quanto de sequeiro é imprescindível o acompanhamento de um profissional da área para que possa estabelecer a época e frequência de amostragem para melhor programar a adubação para atender as demandas da planta a atingir bons índices de produtividade.

Parâmetros para interpretação

Para interpretação dos resultados das análises foliares existem diversos parâmetros. No estado de Minas Gerais utiliza-se a 5ª Aproximação, esta que é utilizada para comparação dos teores encontrados pela análise foliar com os teores tabelados para a cultura. Na tabela 1 estão mostrados os teores foliares de nutrientes considerados adequados para o café arábica e para o café conilon de acordo com a 5ª Aproximação.

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Tabela 1- Teores considerados adequados na análise foliar para o café arábica e para o café conilon.

Dessa maneira, basta comparar os teores encontrados na análise foliar de sua lavoura com os teores apresentados na tabela acima. Caso o teor encontrado na lavoura for menor do que o apresentado na tabela, o nutriente analisado está em déficit. Caso o teor encontrado na lavoura for maior que o apresentado na tabela, significa que o nutriente está em excesso. É recomendado que o nutriente esteja nos teores indicados acima, considerados suficientes.

Portanto, a análise foliar deve ser encarada como essencial e rotineira na cultura do café. Esta que é uma excelente ferramenta para auxiliar na busca de altas produtividades e na viabilidade do agronegócio. Entretanto, deve ser utilizada em conjunto com a análise de solos. Além disso, é extremamente importante a presença de um profissional (agrônomo) para melhor estabelecer programas de adubação e corretivos, para conseguir eficiência máxima do seu cafezal, gerando maior rentabilidade e menores custos de produção.

CONHEÇA A IMPORTÂNCIA DOS MICRONUTRIENTES ZINCO E BORO NA CAFEICULTURA

Gabriel Castillo

Universidade Federal de Lavras-3rlab

Sabe-se que os micronutrientes são utilizados em pequenas quantidades pelas plantas. Entretanto, sua falta pode comprometer significativamente a produção. Os elementos considerados micronutrientes são: zinco (Zn),cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn), molibdênio (Mo), boro (B) e cloro (Cl).

Os micronutrientes são encontrados em baixos teores no solo e sua quantidade total pode variar de acordo com o material de origem e o grau de intemperização dos solos. Os solos de origem basáltica, geralmente, são mais ricos em nutrientes. A disponibilidade desses no solo para as plantas é influenciada por diversas características do mesmo, sendo principalmente: teor de matéria orgânica, umidade, pH, textura e mineralogia, condições de oxido redução e interação com outros nutrientes. Neste artigo, será abordada a importância dos micronutrientes zinco e boro na cafeicultura, sendo estes considerados os micronutrientes que mais limitam a produção.

Boro

Sabe-se que esse nutriente é absorvido pelas plantas na sua forma iônica H3BO3. Esse nutriente atua no metabolismo de carboidratos e transportes de açucares através das membranas, na formação da parede celular, divisão celular e movimento da seiva.

Como já foi citado acima, o boro juntamente com o zinco são os micronutrientes que mais limitam a produção do cafeeiro. Esse nutriente é encontrado na matéria orgânica (maior fornecedora deste nutriente via solo). No cafeeiro, o boro atua no crescimento e divisão celular. Dessa maneira, sua exigência é maior nas partes da planta com intenso crescimento, tais como: ponta de caule, ponta de raiz, ponta dos ramos laterais e meristemas radiculares. Por limitar o crescimento, é possível observar que as plantas com deficiência de boro possuem menor tolerância a seca.

 Causa e sintomas da deficiência           

A falta desse nutriente está muitas vezes associada ao excesso de chuvas, resultando em lixiviação, efeito de calagem excessiva e também em decorrência de doses excessivas de adubos nitrogenados.

A morte das gemais apicais, localizadas na ponta do caule do cafeeiro, é um sintoma da deficiência de boro. Além desse sintoma, pode ocorrer também o encurtamento dos internódios. Sabe-se que os primeiros sintomas de deficiência são encontrados nas partes mais novas, ainda em crescimento. As folhas novas que se apresentam pequenas e retorcidas, com as bordas irregulares e limbo estreito são característicos dessa deficiência (figura 1).

Caso a deficiência seja severa pode ocorrer o abortamento das flores refletindo significativamente na produção e consequentemente na rentabilidade da cafeicultura.

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Figura 1- Folhas pequenas e retorcidas devido a deficiência de boro.

Zinco

O zinco participa da síntese de triptofano, importante aminoácido que compõe o hormônio do crescimento. Esse nutriente é extremamente importante para a síntese de proteínas, desenvolvimento das partes florais, produção dos grãos e sementes e maturação precoce das plantas. No cafeeiro, o zinco é um dos micronutrientes que mais podem limitar a produção. Esse atua nas áreas de crescimento da planta e tem importante papel no pegamento da florada e tamanho dos frutos.

Causas e sintomas de deficiência

Sabe-se que a maior causa da deficiência de zinco é sua propriedade de ficar fortemente retido pelo complexo de troca do solo, em especial, nos solos argilosos. Sendo assim, sua absorção pelas raízes fica comprometida.

Os primeiros sintomas de deficiência ocorrem nas folhas em crescimento, entretanto tal deficiência as tornam estreitas, retorcidas, quebradiças e ásperas ao tato. Na região internerval é possivel observar um fundo amarelado e ao seu redor (nas laterais da nervura principal) a cor verde da folha se mantém. Esse sintoma, conhecido como clorose pode evoluir para manchas púrpuras.

Os tamanhos reduzidos das folhas somados à sua localização em internódios encurtados formam uma “roseta”, podendo ocasionar a morte dos ponteiros. As plantas com carga alta que apresentam essa deficiência apresentam desfolha acentuada e cinturamento (figura 2), comprometendo significativamente a safra.

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Figura 2- Cafeeiro apresentando alta desfolha e acentuado cinturamento.