Mancha aureolada na cafeicultura e seus métodos de controle. Pedro Felipe Martins da Silva Universidade Federal de Lavras 3rlab

O agronegócio café representa para o Brasil uma importante fonte de receitas seja através dos recursos gerados através da comercialização tanto para o mercado interno, quanto para mercado externo, seja pelo número de empregos gerados de forma direta ou indireta dentro e fora dos grandes polos produtores. De acordo com estimativas do ministério da agricultura pecuária e abastecimento (MAPA), o país produziu na safra 2015 aproximadamente 43,23 milhões de sacas, somente o estado de Minas Gerais produziu na mesma safra 22,3 milhões de sacas. A região sul de minas é o maior polo produtor do estado e do país com produção na última safra de 10,8 milhões de sacas, nessa região predomina as pequenas propriedades e a predominância da chamada cafeicultura de montanha.

Apesar dos bons números do setor, existem certos pontos que merecem atenção dos agentes que compõem a cadeia produtiva do café, um desses pontos seria a maior incidência e intensidade de doenças. No caso do sul de minas em áreas montanhosas, Paraná, São Paulo e regiões de alta altitude na zona da mata mineira, a mancha aureolada vem ganhando destaque e comprometendo a produtividade dessas lavouras nas últimas safras.

A mancha aureolada (figura 1) é uma doença causada pela bactéria Pseudomonas seryngae, sua maior ocorrência está relacionada a áreas mais frias, de maior altitude, em lavouras jovens com ausência de proteção contraventos e com alta umidade. É observado também que as cultivares de café de porte mais baixo, especialmente as variedades Topázio e Ouro Verde são mais sensíveis ao ataque de Pseudomonas.

Os principais sintomas da mancha aureolada no café são: manchas escuras com halo amarelado ao redor da lesão, transparência na parte interna desse halo, ocorrência na maioria dos casos em folhas novas e queima e morte dos ramos (figura 2). Em situação de campo observa-se que muitos técnicos e produtores confundem os sintomas de manchas aureoladas com mancha de phoma ou com antracnose do café e com isso tem sido recomendado produtos que não apresentam nenhum resultado em campo.

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Figura 1- Ataque de Pseudomonas em folhas de cafeeiro.

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Figura 2 – Ataque de Pseudomonas em ponteiros de café.

 

Por se tratar de uma doença cujo o agente etiológico é uma bactéria, o controle químico é uma alternativa pouco eficaz no controle do patógeno, de modo geral técnicos indicam pulverizações de produto a base de cobre (função preventiva) ou Dithane (grupo dos ditiocarbamatos) em mistura com o superfosfato simples (ação bactericida do flúor). Além do tratamento citado anteriormente, também é indicado a utilização de antibióticos e Kasugamicina.

É observado na prática que o controle cultural é o método que demonstra ter maior eficiência, porém esse método tem caráter preventivo, ou seja, é indicado para evitar a ocorrência da doença no campo. As práticas mais adotadas em locais que apresentam potencial para ocorrência da doença são: Instalação de quebra ventos temporários (plantio de renques de milho, milheto e guandu) e fixos (plantio de árvores em locais onde há grande incidência de ventos), limpeza de maquinários utilizados em talhões com histórico de ocorrência da doença a fim de evitar a disseminação da doença e a poda de limpeza associado com a queima dos ramos cortados têm se mostrado uma técnica importante para o controle do patógeno.

O avanço da doença sobre as grandes regiões produtoras e principalmente sobre as regiões de cafeicultura de montanha, tem sido motivo de preocupação para produtores de tais regiões e representa mais um novo desafio, é necessário que produtores adotem o controle preventivo para evitar a entrada da doença nas lavouras e garantir aumentos de produtividade para as futuras safras.

 

 

 

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Potencialização da atividade agropecuária através da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Pedro Felipe Martins da Silva-UFLA /3rlab

Em virtude do aumento populacional, aumento da demanda de alimentos, valorização de terras e os elevados custos de produção, foi necessário a criação de um sistema de produção que tornasse possível a maximização dos recursos da propriedade rural, garantindo maior rentabilidade as atividades desempenhadas e sustentabilidade ao sistema. Nessa lógica o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) foi desenvolvido a fim de viabilizar as atividades dentro dos estabelecimentos rurais, recuperando terras antes degradadas pelo manejo irracional do solo e consequentemente aumentando o fluxo de capital em decorrência do maior número de atividades sendo desenvolvidas no mesmo local com maiores índices de produtividade.

Segundo estimativas da EMBRAPA no Brasil atualmente 1,6 a 2 milhões de hectares são manejados segundo os princípios da ILPF, sendo que a grande maioria dessas terras está nas regiões do centro-oeste e sul do Brasil. Diante de todos os benefícios que os sistemas de ILPF possam vim a proporcionar a propriedade rural, é esperado que nos próximos 20 anos as áreas de ILPF some aproximadamente 20 milhões de hectares.

Como principais vantagens do sistema ILPF temos:  recuperação de pastagens degradadas através da melhoria da qualidade de fertilidade de solo, produção variada dentro da propriedade, maior incorporação de carbono e maior acúmulo de matéria orgânica, menos problemas de pragas, doenças e plantas invasoras nas lavouras. Vale a pena ressaltar que há inúmeras vantagens em empregar o sistema de ILPF nas áreas de produção, porém nesse trabalho iremos abordar e discutir somente as vantagens mencionadas acima.

Sabe-se que as pastagens é a principal fonte de alimentação de volumoso e também é a fonte mais barata de alimentação, historicamente na pecuária brasileira as pastagens não recebem os devidos cuidados necessários para sua boa produção e consequentemente não conseguem suportar maiores taxas de lotação, tornando a atividade pouco viável em regiões que a terra é mais valorizada. Como forma de constatação dessa realidade observamos que os grandes rebanhos migraram para as regiões mais periféricas, onde a terra é mais barata e o produtor não necessita se atentar a condição de sua pastagem para obter resultados econômicos. No entanto com a adoção de tecnologias já se observa no campo a preocupação em aumentar a taxa de lotação para aproveitar ao máximo os recursos disponíveis.

Através da melhoria da fertilidade do solo é possível aumentar a produtividade das pastagens, uma forma de aumentar os níveis de fertilidade do solo seria a consorciação da forrageira com uma cultura de verão, dessa forma planta-se o milho no início da época das chuvas (outubro- novembro) e 10 a 15 dias após o plantio do milho deve-se proceder o plantio da brachiaria ou de outra forrageira via semente nas entrelinhas. Nesse sistema a brachiaria aproveita a adubação residual do milho e logo após a colheita do grão a forragem estará disponível para os animais, conforme ilustrado na figura 1.

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Foto1- Consórcio de milho com brachiaria, em sistema de ILP.

Outra vantagem abordada em relação ao sistema de ILPF é a produção diversificada dentro da propriedade, nas áreas em que o ILPF é implantado temos como comercializar anualmente madeira, cereais e animais. A diversificação de produção é importante devido ao fato do produtor ter maior segurança de renda, pois o mesmo não fica na dependência do comportamento do mercado com relação a um único produto.

Bem como se sabe as plantas utilizam CO2 para a realização da fotossíntese, sendo que aproximadamente 50% da biomassa vegetal é constituída de carbono. As árvores nesse contexto são grandes sequestradoras de carbono e são indispensáveis quando se deseja desenvolver uma atividade de baixa emissão de carbono. Para tais atividades já existem linhas de crédito específicas como por exemplo o programa ABC (agricultura de baixo carbono). Além da incorporação de grande quantidade de carbono efetuada pelas árvores, ocorre também na ILPF o aumento do teor de matéria orgânica em virtude dos restos culturais e maior ciclagem de nutrientes, pois utiliza-se plantas de ciclos diferentes com profundidade radicular variada.

A matéria orgânica (MO) é a grande responsável por manter a “boa saúde do solo”, maiores teores de MO estão associados a maior retenção de água, maior disponibilidade de nutrientes, maior tamponamento do pH, menor incidência de pragas e doenças. De certa forma observa-se que a MO está totalmente relacionada com o aumento de produtividade e sustentabilidade do empreendimento.

A incidência de ataques de pragas, doenças e de plantas invasoras são fatores que limitam a produção em determinadas regiões, uma forma de tentar controlar ou até mesmo minimizar os problemas provocados por esses fatores seriam a rotação de culturas a fim de quebrar ciclos de pragas, doenças e plantas invasoras. A rotação de cultura é uma técnica indispensável quando se deseja adotar a ILPF e comparada ao método de controle exclusivamente químico é mais segura, vale a pena ressaltar que a junção de todos os métodos de controle (químico, cultural e biológico) resulta no sucesso do combate.

O sistema de ILPF (figura 2) é um pacote tecnológico que possibilita ao produtor maior segurança em relação a produção, melhor utilização dos recursos disponíveis (água, solo, maquinários e implementos), proporciona melhoria do solo e conservação da água. Para o sucesso do sistema é necessário que técnicos e produtores adotem as práticas adequadas, como por exemplo, plantio de árvores em nível, lotação de pastagens de acordo com a oferta de forragem, evitar monocultivos, entre outras, afim de alcançar os objetivos estipulados.

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Foto 2: Sistema de ILPF na fase de pré- pastejo com fileiras duplas de eucalipto.

 

 

 

 

A vaca Israelense: recordista mundial em produção de leite

Marcelo Hentz Ramos – PhD / Diretor 3rlab

 

Israel tem um número de vacas leiteiras relativamente pequeno: 125.000 animais em 834 fazendas. Todas as vacas são Holstein Israelenses, que foram desenvolvidas pelo programa de melhoramente genético Israelense.

O fato de vacas Israelenses serem selecionadas de raças regionais atravéz de gerações permite uma grande adaptação aos verões longos e quentes. Em 2014, a produção anual de uma vaca Israelense foi a maior do mundo, com média de 12.083 kg de leite com 3.27% de proteína e 3.64% de gordura (figura 1)

 

Cuidando das vacas

 

Em 1919, o serviço veterinário Isralense (Hachaklait) foi criado com o objetivo de proteger os animais em forma de seguro. O serviço veterinário é único no mundo com 36 veterinários e 11 substitutos (veterinários que preenchem horários temporários). Os próprios produtores são donos do serviço veterinário, o que resulta em uma prestação de serviço excelente e com baixo custo. Todos os produtores pagam uma taxa fixa por animal para custear atendimento rotineiros como também possíveis emergências. Em adição, o produtor também pode adquirir serviços laboratoriais. Medicamentos são repassados aos produtores a preço de custo. Serviços estão disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Todas as vacas são ordenhadas em uma sala de ordenha com equipamento de ordenha e ou robos. Oitenta por cento das salas de ordenha possuem medidores de leite. Levando em consideração que 90% das vacas estão sob controle leiteiro, checagem anual de rotina de trabalho na ordenha como também manutenção de equipamentos são realizadas.

Maioria das fazendas utiliza TMR como único sistema de alimentação. A maioria dos vagões são produzidas localmente: estático, auto-propelido, acoplado ao trator ou instalado em caminhão. Os rebanhos pequenos são favorecidos por centros de preparação de dietas que entregam a comida pronta na fazenda, economizando tempo e dinheiro.

As dietas de verão são adaptadas ao clima quente. Existe um aumento de entrega de alimentos durante o verão (duas a três vezes por dia no verão) preferencialmente no início da manhã e no final da noite quando a temperatura esta um pouco mais baixa. Se necessário, para inibir fermentação, inibidores de crescimento de fungos são adicionados. Muito atenção é gerada para garantir água limpa e fresca como também sombra.

 

Banco de dados

 

Um sistema de computador utilizado por praticamente todos os fazendeiros no país (NOA), permite que todas as entidades envolvidas com a indústriam tenham acesso a uma grande quantidade de informações a um custo relativamente baixo. Produtores entram dados de: parto, secagem, compra, descartes, prenhez, tratamentos, etc… Uma vez ao mês os dados são transferidos para um banco de dados da associação Israelense (ICBA). A ICBA cruza estes dados com dados de outras associações: inseminação, Interbull, avaliação genética e qualidade do leite. Esta grande quantidade de informação permite aos Israelenses tomarem descisões para continuar o crescimento genético.

Amostras de leite enviadas à indústria são transportadas a noite para laboratórios de análises de leite onde são analizadas para componentes e qualidade. O resultado (com adição de gordura, proteína, CCS e contagem bacteriana) é utilizado para determinar o pagamento para o produtor.

Em 2011, iniciou-se a coleta de consumo de matéria seca para novilhas, vacas secas e vacas em lactação.

 

Estabelecimento de preço

 

As condições geopolíticas de Israel reduz sua abilidade de comércio com vizinhos, forçando-os em confiar na produção e marketing local. De acordo com a lei Israelense, nenhuma fazenda produtora de leite pode produzir ou comercializar leite sem processamento, portanto a produção de leite é regularizada por quotas.

As quotas são definidas anualmente e divididas em quotas mensais pelo Conselho de Leite de Israel (IDB) uma organização que envolve governo, empresas e produtores. Este processo ajuda a balancear a demanda e o suprimento do setor enquanto também permite um crescimento contínuo e lucros razoáveis. O IDB é financiado por menos de um centavo de dólar por todo o leite comercializado em Israel.

Ao contrário de outros países, o preço base do leite para o produtor é acordado entre os parceiros do conselho. O preço reflete a média de custo de produção mais um retorno em mão de obra e capital investido para os produtores. A cada três meses, um preço é calculado de acordo com mudanças nas variáveis envolvidas no preço do leite. Quinze por cento do orçamento do IDB é utilizado para fundar o Serviço Nacional de Qualidade do Úbere e Leite, que foi fundado em 1997 com o objetivo de erradicar Staph. Aureus nos rebanhos Israelenses, uma meta atingida com grande sucesso. Hoje, menos de 0.001% das culturas resultam em Staph. Aureus.

 

Educação

 

Serviço de extensão, sem custo, esta disponível para todos os produtores de leite sob demanda. A queda inevitável na produção e fertilidade das vacas cria uma sazonalidade significante na oferta de leite como também um custo adicional aos produtores devido a necessidade de secar o leite no inverno e reutilizá-lo no verão. Entretanto, produtores que implementaram métodos apropriados de controle de ambiente, praticamente eliminaram a sazonalidade na produção de leite e fertilidade.

As razões pela qual a Holstein Israelense tornou-se líder em produção mundial são muitas. A verdadeira resposta esta na combinação de métodos únicos utilizados em Israel para a gestão do rebanho, especialmente o banco de dados em comum, cooperação entre todos os setores da indústria e um alto nível técnico dos profissionais.

 

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Figura 1 – Vista de vacas Israelenses

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado de: The Israeli Holstein cow: A world leader in milk yield. Hoards Dairyman, Outubro de 2015.