Vacas gordas no final da lactação: um problema mundial. Grupo de mantença, uma possível solução.

Vacas no lote de baixa produção estão gordas na fazenda que você assiste? Grande parte dos consultores que trabalham com vacas de leite no mundo certamente irá responder sim a esta pergunta. Mas por que isto é um problema e o que podemos fazer para solucioná-lo?

Vacas gordas no final da lactação é um problema mundial. Este é a raiz de grande parte dos problemas que encontramos após o parto: retenção de placenta, deslocamento de abomaso, mastite, baixa taxa de concepção, baixa produção de leite. Mas como uma condição de um animal antes do parto pode afetar o desempenho do mesmo após o parto? Simples, vacas que parem gorda são vacas que irão ter problemas durante a lactação. Esta afirmação todos os consultores estão acostumados a encontrar em publicações. Mas o que é uma vaca gorda? Este é o problema, uma vaca gorda no parto pode ser uma vaca na condição corporal de 3.0 (escala de 0 a 5). Não precisa ser uma vaca na condição corporal de 4.0. O que estamos preocupados não é com a gordura que podemos observar (clínica), mas sim com a gordura dentro do corpo da vaca, que não podemos observar (subclínica). Isto significa que uma vaca A na condição corporal 3.0 e uma vaca B na condição corporal 3.0 podem estar em condições corporais (subclínicas) completamente diferentes. Ou seja, a vaca A pode ser uma vaca que estava gorda no lote de baixa produção, foi para o pasto durante o período que estava seca e voltou para o cocho antes do parto. Esta vaca irá acumular grande parte da gordura que estava na carcaça na parte interna do seu corpo. Enquanto a vaca B pode ser uma vaca que chegou a uma condição corporal 3.0 durante a lactação e foi manejada para permanecer em 3.0 durante todo o resto da lactação até o parto. Esta vaca não possui gordura dentro do corpo. Portanto, do ponto de vista subclínico (o ponto que nos interesse), a vaca A esta gorda e a vaca B não. Mas esta deposição de gordura dentro do corpo do animal realmente acontece? Pesquisadores da Universidade de Illinois alimentaram dois grupos de vacas na mesma condição corporal (3.0, condição corporal inicial): um grupo com uma dieta de alta energia (AE) e outro grupo com uma dieta de baixa energia (BE) (Tabela 1). Podemos observar que os dois grupos (AE e BE) terminaram o experimento com condição corporal idênticas, 3.5. Ou seja, são duas vacas com a mesma condição corporal. Entretanto quando observamos a quantidade de gordura no omento, mesentério e perirenal, podemos observar um aumento expressivo de gordura no animal que recebeu a dieta de alta energia. Sendo assim, podemos comprovar que duas vacas na mesma condição corporal clínica (que podemos observar) podem possuir condição corporal subclínicas (que não podemos observar) completamente diferentes.

Perfeito, entendemos que precisamos evitar a presença de animais “gordos subclínicos” ao parto. Mas como fazer? Pesquisadores da Universidade de Michigan estão propondo uma nova maneira de agrupar vacas com um único objetivo: não deixar a vaca engordar no final da lactação. Este grupo possui o nome de “mantença”. “O grupo de mantença não é o lote 2, pois pode possuir vacas de altíssima produção, o que queremos nesse grupo são vacas que já recuperaram a condição corporal perdida durante o pós parto e que estão começando a depositar gordura, estes animais são deslocados para o lote de mantença. Nosso objetivo neste lote é permitir que o animal continue produzindo muito leite mas sem engordar”, diz Mike Allen, professor da Universidade de Michigan. Portanto, o grupo de mantença é um grupo de animais que ainda estão produzindo muito leite com o objetivo de não deixar estes animais engordarem. Dr. Allen possui as seguintes recomendações para este grupo:
-trabalhe com 5-6 unidades a menos de amido.
-não utilize grão úmido.
-aumente o FDN da dieta em 5-6 utilizando FDN de excelente digestibilidade. Se a fazenda não possui forragem de boa digestibilidade é uma excelente oportunidade para se utilizar subprodutos.

Uma grande preocupação neste grupo de animais é trabalhar com menos amido fermentável no rúmen. De acordo com a teoria da oxidação, proposta pelo próprio Dr. Allen, o ácido propiônico (grande parte produzido por amido) produzido no rúmen é responsável pelo acúmulo de gordura na carcaça dos animais. Desta maneira, trabalhar com menos amido fermentável e mais fibra fermentável no rúmen é o grande diferencial deste grupo.

Portanto precisamos entender dois pontos importantes deste artigo: vacas gordas no final da lactação serão vacas gordas (subclínicas) ao parto, isto é um fator predisponente para todas as doenças metabólicas que ocorrem durante a lactação. Para resolver este problema podemos agrupar os animais em um lote que chamamos de “mantença”, este lote possui uma dieta com menos amido e mais fibra de boa qualidade.

Tabela 1 – Escore de condição corporal de dois grupos de animais alimentados com dietas de alta energia (AE) ou baixa energia (BE).
tabela

Por: Marcelo Hentz Ramos – PhD, Diretor 3rlab, consultor Rehagro

Publicado originalmente na revista Balde Branco.

“Febre do leite subclínica” – a causa de muitas outras doenças no rebanho

A Febre do leite (hipocalcemia subclínica) é diagnosticada quando o nível de cálcio no sangue do animal esta menor do que 8.5 mg/dL. Em uma maneira simples de entender: o animal não possui cálcio suficiente para o funcionamento das células do seu organismo. Quais células precisam de cálcio? TODAS! Portanto fica fácil de compreender que cálcio baixo no sangue resulta em maior incidência de mastite, deslocamento de abomaso, retenção de placenta, baixa produção de leite, etc…

Em 2002, o departamento de agricultura dos Estados Unidos relatou que metade das vacas naquele país estava com hipocalcemia subclínica logo após o parto. Isto nos mostra que o problema é existente. E nas nossas vacas? Quantas estão com hipocalcemia subclínica? Esta é uma pergunta que certamente poucas pessoas podem responder. O motivo é simples: nós não estamos acostumados a identificar problemas subclínicos nas fazendas.

E se eu medir o cálcio das vacas e diagnosticar que tenho este problema? O que eu posso fazer? Uma maneira muito utilizada para controlar este problema é a adoção de dieta aniônica. Esta dieta contém uma quantidade maior de cloro e enxofre para fazer com que o sangue do animal fique mais negativo (leva a uma acidose metabólica), desta maneira ele torna-se mais eficiente em mobilizar o cálcio do seu próprio corpo quando a demanda existe.

Como monitorar se a minha dieta aniônica está funcionando? Uma maneira eficaz é a mensuração do pH da urina dos animais. A meta é obter urinas com pH menor que 7.

Se conseguirmos evitar que os animais passem por uma fase de hipocalcemia subclínica a chance de desenvolvimento de qualquer doença de origem metabólica é menor e como consequência temos a oportunidade de produzir mais leite. Em um estudo realizado em 2010, animais que receberam dietas aniônicas (-10 mEq/100 g) produziram 6.5 kg a mais de leite por vaca/dia quanto comparado aos animais que não receberam dieta aniônica (+22 mEq/100 g).

Muito importante além da utilização de dieta aniônica quando o problema existe é garantir que este animal esteja ingerindo a quantidade correta de cálcio. Recomendações recentes sugerem que animais em período pré-parto estejam consumindo uma dieta com menos de 60g ou mais de 180g de Ca. Quantidades intermediárias a estes valores estão relacionadas à alta incidência de hipocalcemia subclínica.

Por: Marcelo Hentz Ramos – PhD, Diretor 3rlab, consultor Rehagro