Sêmen sexado: pesquisas recentes recomendam inseminar mais tarde que o sêmen convencional

Os sistemas de detecção de estro com utilização de aparelhos (pedômetros, detectores de atividades) estão se tornando cada vez mais populares em fazendas comerciais brasileiras. A utilização destes sistemas criam oportunidades para aumentar a porcentagem do rebanho inseminado sem a utilização de protocolos de sincronização de cio. Em grandes rebanhos, a utilização destes sistemas também podem reduzir a necessidade de mão de obra necessária para observação de cio (visual ou com utilização de marcadores na cauda).

         Utilizando um equipamento com detecção de estro, pesquisadores da Universidade de Minnesota, determinaram que a taxa de prenhez por inseminação (P/IA) foi maior quando o intervalo entre a primeira monta (início do cio) até a realização da inseminação artificial (IA) foi de 4 a 12 horas quando foi utilizado sêmen convencional (figura 1). Mais recentemente, têm sido sugeridos que o tempo ideal entre o aumento de atividade (acima de um limite) até a IA para maximizar P/IA era de 4 a 12 horas em vacas adultas e aproximadamente 16 horas em novilhas. Estes dados possuem uma explicação fisiológica. A ovulação ocorre aproximadamente 28 a 30 horas após a vaca iniciar os sinais de cio (primeira monta, aumento de atividade).

         Após a ovulação, um ovo viável está presente no útero da vaca por aproximadamente 10 horas. Após a IA, as células do esperma são viáveis no útero por aproximadamente 24 horas e dentro deste período (primeiras 10 horas) as células do esperma sofrem algumas reações químicas que permitem a fertilização. Entretanto, a inseminação de vacas entre 4 a 16 horas após o início do cio representaria a inseminação em aproximadamente 12 a 26 horas antes da ovulação. Inseminar as vacas mais cedo (< 4 horas após o início do cio) pode reduzir P/IA devido ao número limitado de células viáveis para fertilizar o ovo e inseminar vacas muito tarde (>16 horas após o início do cio) pode reduzir P/IA porque quando as células do esperma estão prontas para fertilização estas não encontrariam ovos viáveis para fertilizar.

         Sêmen sexado é produzido do ejaculado que é processado e resulta em sêmen com células predominantemente contendo o cromossomo X (fêmea) ou Y (macho). Embora o processo de seleção de sêmen resulte em uma alta “pureza” (90 a 95% das células presentes na palheta são do sexo desejado), a produção de sêmen sexado é cara devido a principalmente uma grande parte de o ejaculado ser “perdido” no processo.

         Portanto, palhetas com sêmen sexado geralmente possuem 10 vezes menos células do que palhetas com sêmen convencional. Este processo de selecionar o cromossomo e o número reduzido de células na palheta geralmente é culpado para a baixa P/IA observado com a utilização de sêmen sexado.

         Considerando o número reduzido de células na palheta com a utilização de sêmen sexado e a menor viabilidade dos mesmos, estratégias têm sido avaliadas para aumentar P/IA com a utilização de sêmen sexado. Um ponto de grande interesse dos pesquisadores é o tempo da IA em relação ao início do cio. Inseminação com sêmen sexado de 4 a 16 horas após o início do cio (recomendado para sêmen convencional) pode limitar o número de células viáveis para fertilização quando um ovo esta pronto para ser fertilizado.

         Recentemente pesquisadores demonstraram que P/IA de novilhas Jerseys inseminadas com sêmen sexado foi maior quando a inseminação aconteceu aproximadamente entre 16 a 24 horas após o início do cio (12 a 16 horas = 38%, 16.1 a 20 horas = 52%, 20.1 a 24 horas = 56% e de 24.1 a 30 horas = 46%). Outro experimento com vacas Jerseys lactantes (n = 600) está sendo conduzido para determinar o tempo ideal de IA com a utilização de sêmen sexado com relação ao início do cio, levando em consideração o aumento de atividade dos animais. Dados preliminares sugerem que vacas lactantes recebendo sêmen sexado devem ser inseminadas entre 20 a 28 horas após o início do cio para atingir a taxa ótima de P/IA.

         Estes tipos de experimentos que exploram as melhores alternativas para aumentar a P/IA de novilhas e vacas em lactação com a utilização de sêmen sexado são cruciais para permitir que produtores de leite utilizem estas tecnologias com o maior proveito sem comprometer parâmetros reprodutivos.

3rlab

Figura 1 – Tempo ideal de inseminação com utilização de sêmen convencional vs. sêmen sexado. Probability of pregnancy = probabilidade de prenhez. Ideal time to AI with conventional semen = Tempo ideal de inseminação com sêmen convencional. Ideal time to AI with sex-sorted semen = Tempo ideal de inseminação com utilização de sêmen sexado. Hours from onset of estrus = Horas após início do estro.

 Por: Marcelo Hentz Ramos, PhD – Diretor 3rlab

Adaptado de:

Early results suggest waiting longer to breed with sexed sêmen.

Bovine veterinarian, dezembro de 2014.

3,0 Kg a mais de leite sem custo?

Pesquisadores da Universidade de Guelph-Canada examinaram a dieta de 22 rebanhos leiteiros durante uma semana e concluíram que para cada aumento de 0,5 pontos na variação de energia líquida de lactação houve uma queda de 1 kg no consumo de matéria seca, e como consequência uma queda de 3 kg na produção de leite. A pergunta que devemos responder é a seguinte: como diminuir a variação da dieta oferecida e recuperar os 3 kg perdidos?

         O primeiro ponto que devemos nos atentar é que existe uma ferramenta que pode ser utilizada na fazenda para recuperar os 3 kg perdidos, esta ferramenta é o separador de partículas da Universidade da Pensilvânia (Peneira Penn State). Para realizar este teste devemos coletar 10 amostras equidistantes no cocho dos animais. Para cada amostra realizamos o teste da peneira e anotamos a porcentagem de alimento que fica retida na peneira de cima, na do meio e na de baixo. No final do teste teremos como exemplo a Tabela 1. Podemos verificar que a média de partículas retidas na primeira peneira foi de 4,2% contra 30,5% na peneira do meio e 64,3% na peneira de baixo. Agora com os 10 valores de cada peneira podemos calcular o desvio padrão por tipo de peneira. Este valor de desvio padrão dividido pela média nos dá o coeficiente de variação. O coeficiente de variação da peneira de cima e do meio estão acima da meta de 5%, o que fazer?

         Identificamos que nesta fazenda existe a possibilidade de recuperar os 3 kg perdidos, pois a qualidade da mistura não está boa. Os grandes vilãos que normalmente causam uma má mistura são:

         – ordem incorreta de carregamento do vagão misturador,

         – sobrecarregamento do vagão,

         – muito ou pouco tempo de mistura,

         – facas do misturador cegas ou quebradas,

         – desnivelamento na hora de carregar os ingredientes no misturador

         – utilização de subprodutos em grandes pedaços que não misturam bem,

         – entre outros.

         Por que uma variação na qualidade da dieta oferecida causa tanto prejuízo? Simples, um dia a vaca X come uma dieta com 16% de Proteína Bruta (PB), no outro dia a fazenda estava sem um funcionário e o próprio funcionário da alimentação teve que ajudar na ordenha, portanto teve que fazer um trato corrido e não teve tempo de deixar a dieta misturar. A dieta oferecida continha 13% de PB, fica fácil de compreender correto porque neste dia a vaca X vai dar menos leite correto?

Certamente uma auditoria no sistema de alimentação poderá ajudar o produtor a recuperar algum leite perdido, a pergunta que devemos fazer é: quando que iremos recuperar na nossa fazenda?

Tabela 1 – Valores da dieta que ficaram retidos na peneira de cima (topo), do meio (meio) e no fundo (fundo) durante uma auditoria do sistema de alimentação em uma fazenda leiteira.

Amostra %Topo % Meio % Fundo
1 2,5 30,6 65,9
2 3,6 27,4 67,9
3 4,3 30,1 64,3
4 2,2 33,1 63,6
5 4,7 32,1 61,6
6 3,8 31,9 63,5
7 4,8 31,8 63,2
8 4,1 30,3 65,9
9 7,6 27,6 64,7
10 4,7 31,6 62,8
Média 4,2 30,6 64,3
DP 1,5 1,9 1,8
CV 34,7 6,1 2,9

DP = Desvio Padrão

CV = Coeficiente de variação = DP/Média

Por: Marcelo Hentz Ramos, PhD – Diretor 3rlab, Consultor Rehagro

Minha silagem de milho está muito ou pouco picada? E os grãos da silagem, estão processados o suficiente? Quais ferramentas posso utilizar para ajudar a confeccionar uma silagem melhor em 2014?

Certamente estas são perguntas que devem ser feitas no momento de ensilagem do milho, isto mesmo, quando a carreta estiver descarregando o material picado no silo. É neste momento que devemos estar presente com duas ferramentas: peneira da Universidade da Pensilvânia (Penn State Box) e um balde com água.

Para confeccionar:

A peneira da Universidade da Pensilvânia irá permitir o ajuste do tamanho de corte da ensiladeira. Esta peneira consiste em um grupo de 3 peneiras que são acopladas verticalmente, uma em cima da outra. A peneira com poro maior (19 mm), a peneira com poro médio (8 mm), a peneira com poro pequeno (1.18 mm) e a parte de baixo que coleta o material (Figura 1). No momento da ensilagem uma pessoa deve estar coletando uma amostra (200 gramas, aproximadamente duas mãos cheias) do material picado e colocando na peneira. A mesma pessoa deve chacoalhar a peneira 40 vezes, 5 vezes por cada lado com uma repetição (Figura 2). Após este processo o material contido em cada peneira deve ser pesado. Como exemplo, podemos observar uma carreta com o material picado corretamente (Carreta 4), a próxima em que o material está muito longo (Carreta 5) e a seguinte após amolar as facas da picadeira (Carreta 6) na tabela 1.

Este é a primeira ferramenta que deve ser utilizada em cada carreta que é descarregada no silo. O correto tamanho de partícula da silagem permite um melhor perfil de fermentação e também que os animais ruminem quando o material for oferecido aos mesmos.
A segunda ferramenta que também deve ser utilizada em cada carreta que é descarregada no silo é a análise do processamento dos grãos da silagem. Para isto, necessitamos de um balde com água preenchido até a metade. Colete novamente duas mãos cheias do material picado da carreta e coloque no balde com água. Mexa o material e vá removendo o material que está boiando (planta) até que o balde contenha somente os grãos. Neste momento, jogue toda a água fora e coloque os grãos em uma superfície branca. Compare com a figura 3. Podemos visualizar na figura 3 que os materiais possuem processamentos distintos: o material da esquerda menos danificado e o da direita mais danificado. A recomendação é que o milho de cada carreta esteja o mais próximo possível com o material da direita.

Verificando se o processo de ensilagem foi correto:

Pronto, a silagem está confeccionada, conseguimos atingir as metas de comprimento de corte e processamento de grãos em quase todas as carretas e fechamos o silo. O que eu posso medir para verificar que realmente o grão da silagem está bem processado e não errei na minha avaliação visual? Nesse ponto podemos coletar uma amostra da silagem e enviar ao laboratório para análise de processamento de grãos (KPS). Nesta análise, o laboratório seca a silagem e passa a mesma por uma peneira de 4.75 mm. No material que passou na peneira (menor que 4.75 mm), uma análise de amido é realizada. O objetivo é que a silagem contenha mais de 70% de amido no material que passou na peneira de 4.75 mm (Tabela 2). Como exemplo temos uma silagem com KPS de 80%, isto significa que no material enviado ao laboratório (silagem de milho), da quantidade que passou na peneira de 4.75 mm (portanto menor que 4.75 mm), 80% era amido, portanto uma silagem com processamento de grãos excelente!
Uma ferramenta adicional para verificar que o processo de ensilagem foi realizado com sucesso é a determinação de pH e perfil de ácidos graxos da silagem. Para utilizar esta ferramenta uma amostra da silagem é enviada ao laboratório e as seguintes análises são realizadas: pH, ácido lático, ácido acético, ácido propiônico, ácido butírico, ácidos totais, amônia (Tabela 3). A comparação do resultado da silagem produzida com a meta apresentada pode gerar pontos de oportunidade para a confecção da silagem do próximo ano.

Medindo a qualidade da silagem nos animais

Talvez o local mais importante para medir a qualidade da silagem produzida na fazenda seja os animais. A silagem no silo não é a mesma que chega ao rúmen do animal devido a vários fatores: manejo de silo, tempo entre desensilagem e oferecimento, qualidade da mistura, espaço de cocho, etc… Portanto, como nosso objetivo é a manter na fazenda animais saudáveis e produtivos, os mesmos são um excelente material para verificar se a silagem foi bem confeccionada.
A primeira ferramenta que pode ser utilizada é a porcentagem de amido nas fezes. Esta ferramenta permite ao técnico verificar se o amido que o animal ingeriu foi utilizado ou foi excretado. A meta para vacas leiteiras é que menos de 5% de amido esteja presente nas fezes. No Brasil, temos fazendas com alta produção, animais saudáveis, sem a utilização de grão úmido na dieta, com fezes atingindo esta meta. Portanto, este valor apesar de ser uma meta americana, também é atingível em nossas fazendas.
A segunda ferramenta que pode ser utilizada na fazenda é a observação de ruminação dos animais. Em condições normais, metade dos animais no lote devem estar ruminando, exceto quando estiverem comendo ou sob stress térmico.

Impacto econômico:

Podemos visualizar na Tabela 4 a comparação econômica entre duas silagens com processamentos distenso de grãos. A silagem A com o grão de milho processado corretamente e a silagem B com o grão de milho processado incorretamente. Para esta simulação vamos utilizar os seguintes parâmetros: 600 kg peso vivo, 80 DEL, 3,5% Gordura, 30 kg de leite. Podemos observar que quando a silagem possui grãos que foram danificados no processo de ensilagem temos a expectativa de aumentar a produção das vacas em aproximadamente 1 kg de leite, esta produção é refletida em um maior retorno sobre custo alimentar (RSCA) com a utilização da silagem A. Este valor pode ser utilizado para uma decisão sobre processar ou não o grão da silagem. Como exemplo, temos uma fazenda com 100 vacas. Assumindo aumento de 1 kg de leite/vaca/por com o processamento temos 100 kg. No ano temos R$36.500,00 (assumindo preço do leite a R$1). Vamos simplificar e adotar R$35.000,00. Se o valor que se paga para o processamento do milho no momento da ensilagem for menor que R$35.000,00 temos que adotar esta prática.

Conclusão:

Como a qualidade da silagem de milho impacta diretamente a quantidade de concentrado utilizado na dieta (quanto melhor a silagem menos concentrado), devemos utilizar ferramentas que nos permitam produzir a melhor silagem possível na fazenda. Visto que alimentação é o maior custo para produção de leite, estamos focando exatamente na variável de maior impacto no sistema.

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Figura 1 – Peneiras da Universidade da Pensilvânia – Ferramenta muito útil para determinar o correto tamanho de corte da silagem de milho

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Figura 2 – Movimentos a serem realizados pela pessoa responsável pela determinação do tamanho de corte no silo. Cada lado da peneira necessita de 5 movimentos com uma repetição, totalizando 40 movimentos.

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Figura 3 – Resultado do processo de remoção da forragem do material picado. Três processamentos de grãos podem ser visualizados, somente o material da direita está processado corretamente.

Tabela 1 – Exemplo de amostragem de milho picado em três carretas. Carreta 4 dentro da meta, Carreta 5 acima da meta (muito longo), Carreta 6 dentro da meta

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Tabela 2 – Meta para análise de processamento de grãos da silagem (KPS)

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Tabela 3 – Meta de perfil de fermentação para silagem de milho

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Tabela 4 – Comparação entre o efeito do processamento de grãos da silagem na produção de leite.

Captura de Tela 2015-01-22 às 10.21.35

Silagem A: silagem com grãos processados corretamente (KPS > 70%).
Silagem B: silagem com mau processamento dos grãos (KPS 45%).
Composição da dieta (%MS): 10 kg silagem de milho, 5 kg milho moído fino, 2,5 kg caroço de algodão e 3 kg de farelo de soja.
EM: Energia metabolizável disponível para produção de leite
RSCA: Retorno sobre custo alimentar.

Por: Marcelo Hentz Ramos, PhD-Diretor 3rlab, consultor Rehagro