Ciclo de palestras

3rlab realizando ciclo de palestras nas cidades de Três Corações, Lavras e Madre de Deus.

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Compost Barn: Monitoramento do Sistema de Compostagem e os Benefícios na Produção e Qualidade de Leite PARTE 2

Juliano Bergamo Ronda  Mestre, Médico Veterinário, Consultor em Nutrição de Ruminantes e Professor do Curso de Medicina Veterinária da Universidade de Uberaba, MG –Parceiro do 3rlab

 

 

Escolha do Material para Cama

Existem diferentes materiais orgânicos que são utilizados na confecção das camas, as camas geralmente são de maravalha, serragem ou casca de café, mas podem ser de outros coprodutos orgânicos, como por exemplo casca de soja, casca de amendoim, casca de aveia, palha de arroz, palha de trigo, dentre outros. No geral o material a ser utilizado deve apresentar boa disponibilidade de carbono, capacidade de absorver água, resiliência, preço acessível e boa disponibilidade na região (Shane et.al, 2010).

Para manter as condições adequadas, deve ser reposta uma fina camada de 5 a 10 cm, variando de 1 a 5 semanas, de acordo com o espaçamento definido por vaca no barracão (BARBERG et.al 2007). Quanto maior a taxa de lotação mais frequente será a recarga de cama, sendo que em alguns períodos do ano, a umidade, as chuvas e a temperatura também interferirão nesta reposição.

Quanto ao tempo e momento de retirada, a tendência é conciliar a retirada do material com a época de plantio, aproveitando o resíduo na lavoura. O solo do Brasil, em geral, é muito pobre em matéria orgânica, e, procedendo dessa forma, haveria maior incorporação da matéria orgânica no solo, além de nutrientes de alto valor como nitrogênio e fósforo (BARBERG et al, 2007b; GAY, 2006; JANNIET al, 2007; JANNI et al, 2005).

 

Manejo da Cama

Normalmente inicia-se o sistema de compostagem com 30 a 45 cm de altura de cama, permitindo melhor revolvimento para a incorporação dos dejetos e possibilidade de aeração a profundidade de 18 a 25 cm. As principais funções do processo de revolvimento são a manutenção da superfície da cama seca, mistura dos dejetos na cama e adição de oxigênio nas camadas mais profundas. O processo de revolvimento normalmente vem sendo realizado 2 vezes ao dia, sempre que os animais estão em período de ordenha.

Atualmente os principais equipamentos utilizados para a realização do revolvimento são equipamentos acoplados em tratores, entre eles podemos citar: subsolador, enxadas rotativas e grades. De forma geral devemos utilizar equipamentos que atinjam uma profundidade mínima e que consiga realizar a incorporação dos dejetos na cama.

 

Controle da Temperatura da Cama

Uma das principais formas de avaliar e monitorar a qualidade da cama é pela temperatura da cama. A variação da temperatura está relacionada com vários fatores, dentre os quais estão baixa relação Carbono/Nitrogênio e umidade. A relação carbono/nitrogênio não é um procedimento facilmente realizado na rotina da fazenda, porém caso estes elementos estejam em equilíbrio, a resposta será uma boa compostagem e temperaturas elevadas nas camadas inferiores.

De acordo com Kiehl (1998), no processo de compostagem, a atividade microbiológica atinge alta intensidade, provocando a elevação da temperatura no interior da cama, chegando a atingir valores de 65ºC, ou até superiores, em decorrência do calor gerado pelo metabolismo microbiano de oxidação da matéria orgânica. Porém valores próximos a 55 °C já indicam um excelente processo de compostagem.

Por outro lado, a compactação é um dos maiores responsáveis pela baixa eficiência no processo de compostagem e queda de temperatura, pois faz com que diminua muito o oxigênio, promovendo o início de reações anaeróbicas. É comum ocorrer a presença de odores desagradáveis em caso de compactação, isso em decorrência de um processo respiratório com ausência de oxigênio.

 

Avaliação da Umidade da Cama

A umidade é um dos principais fatores que levam a problemas na cama, entre eles podemos citar: compactação, aumento na concentração de bactérias e maior aderência da cama à pele dos animais (BARBEG et al., 2007; BLACK, 2013). Os níveis de umidade reportados foram de 54,4 % para Barbeg et al. (2007), 63,4 % para Janni et al. (2007) e 56,1 % para Black et al. (2013). Sendo comum encontrarmos valores de umidade entre 40 a 50 % em algumas fazendas, demonstrando bom controle de umidade da cama.

Como podemos observar os níveis de umidade na cama variam de acordo com a localização das fazendas, estação do ano e clima, sendo que as soluções encontradas para o controle de umidade são os ventiladores, lotação e reposição de cama. Vale ressaltar que a adesão de cama à pele do animal deve ser mínima, sendo este um excelente indicador da qualidade do manejo da cama (FÁVERO et al., 2015).

 

Avaliação do pH da cama

Caso exista escassez de oxigênio, o pH poderá atingir valores inferiores a 4,5, e, consequentemente limitar a atividade microbiana, retardando o processo de compostagem. Isso acontece, pois, um dos produtos gerados na decomposição anaeróbica da matéria orgânica são ácidos que se acumulam e diminuem o pH do meio. Esta alteração favorece o crescimento de fungos e a decomposição da celulose e da lignina. Nestes casos, deve-se remexer a cama para o pH voltar a subir, chegando a valores de 5,5 a 7,8 que está dentro do aceitável, limitando a perda de nitrogênio (TIQUIA et al, 2002).

 

Produção e Qualidade de Leite

Estudos realizados demonstram que o aumento na produção de leite é esperado quando os animais são transferidos para o sistema Compost Barn. Segundo Barberg et al. (2007b), as vacas apresentaram aumento médio na produção de leite de 955 kg/vaca/ano em um rebanho com média de lactação encerrada de 10.457 kg/vaca, variando de 8.321 a 12.411 kg, e houve queda na contagem de células somáticas (CCS), que se estabeleceram em 325.000 células/ml (intervalo de 88.000 a 658.000).

Abaixo segue levantamento realizado em 4 fazendas na região de Cruzeiro da Fortaleza, MG. Neste levantamento foram consideradas informações de Produção de leite (kg), Contagem de Células Somáticas (CCS) (x 1000/mL), Contagem Bacteriana Total (CBT) (UFC/mL) e Taxa de Mastite Clínica (%) de um ano produtivo antes da instalação do Compost Barn e um ano produtivo após a instalação do sistema (Tabela 1).

Tabela 1: Avaliação de Produção de leite (kg), Contagem de Células Somáticas (CCS) (x 1000/mL), Contagem Bacteriana Total (CBT) (UFC/mL) e Taxa de Mastite Clínica (%) antes e após a instalação do sistema Compost Barn em Fazendas de Cruzeiro da Fortaleza, MG.

  Antes do Compost Barn Após Compost Barn
Fazendas Produção Média de Leite/ Vaca/dia (Kg)
1 25 32
2 22,5 32,7
3 25 31
4 25 28
Fazendas Contagem média de Células Somáticas (x 1000/mL)
1 300 190
2 400 230
3 140 125
4 600 150
Fazendas Contagem Média Bacteriana Total (CBT) (UFC/mL)
1 10.000 6.000
2 10.000 5.000
3 4.000 3.000
4 15.000 5.000
Fazendas Taxa de Mastite Clínica (%)
1 15 5
2 10 3,7
3 6 1,4
4 5 1,3

Fonte: Arquivo Pessoal

 

Como pode ser observado na Tabela 1, em todas as fazendas houve aumento na produção de leite, redução nos valores de mastite, contagem de células somáticas e contagem bacteriana total. Mas será que devemos atribuir a melhora apenas ao sistema Compost Barn?

Vale ressaltar que o sistema de Compost Barn é necessário para melhorar o ambiente e reduzir o estresse térmico das vacas, porém normalmente as fazendas também apresentam melhora no manejo alimentar, qualidade do volumoso ofertado, genética do rebanho, gestão de pessoas etc. Sendo assim, devemos considerar que as fazendas ao optarem pelo processo de intensificação, acabam intensificando também o acompanhamento dos resultados, e gerenciando ainda melhor o sistema de produção, e com isso os melhores resultados em produção e qualidade de leite são a somatória de fatores diretos e indiretos da instalação de um sistema Compost Barn.

 

Controle de Mastite

Como é observado na Tabela 1 os valores de contagem de células somáticas (CCS) reduziram entre os momentos antes e após a instalação do Compost Barn. Devemos considerar que o controle de mastite subclínica e consequentemente os valores de contagem de células somáticas (CCS) não dependem apenas do ambiente, ou seja, apesar do sistema ser importante para a redução do CCS, o manejo em sala de ordenha é primordial e deve ser considerado um dos principais fatores de controle da mastite subclínica.

Por muito tempo foi considerado que o aumento de temperatura no processo de compostagem seria responsável pela redução no número de bactérias responsáveis pelo desenvolvimento de mastite. Porém será que o processo de compostagem realmente reduz o número de bactérias causadoras de mastite na cama?

De acordo com Lobecket al. (2011) o sistema de Compost Barn apresentou 7 vezes mais coliformes e 47 vezes mais Klebsiella do que sistemas de cama com o uso de areia. Segundo Fávero et al. (2016) a temperatura da cama não é suficiente para o controle de bactérias no material, sendo que a concentração bacteriana na superfície da cama é normalmente alta.

Sendo assim, o controle de umidade é o ponto mais crítico de manejo, pois, a manutenção da cama seca e fofa é associada a vacas mais limpas e com menor incidência de mastite clínica. O sistema de compostagem pode ser viável para confinamento de vacas leiteiras. Entretanto a cama é orgânica e com alta concentração bacteriana, sendo que o sucesso depende do manejo da cama realizado na fazenda.

 

 

 

Compost Barn: Monitoramento do Sistema de Compostagem e os Benefícios na Produção e Qualidade de Leite

 

Juliano Bergamo Ronda  Mestre, Médico Veterinário, Consultor em Nutrição de Ruminantes e Professor do Curso de Medicina Veterinária da Universidade de Uberaba, MG –Parceiro do 3rlab

 

Introdução

O produtor de leite ao escolher as instalações que irão ser desenvolvidas para o alojamento de vacas leiteiras, deverá considerar alguns fatores, entre estes podemos destacar: nível de intensificação do sistema, potencial genético do rebanho, disponibilidade de capital para investimento e preço da terra.

Uma instalação adequada permite que pequenas propriedades possam alojar maior número de animais, intensificando o manejo e utilizando a maior área de terra para a realização de plantio. Isto implicará em quantidade maior de produção de leite por área trabalhada.

No brasil existem diferentes sistemas de produção de leite, desde os sistemas baseados exclusivamente no uso de pastagem extensivas e intensivas, até os sistemas de confinamento, entre estes podemos destacar Compost Barn. Segundo Black et al. (2013) entre as razões para a implantação de um sistema de Compost Barn estão: conforto animal, reflexo na produção de leite, facilidade de manejo, longevidade das vacas, custo de implantação, controle de dejetos no ambiente e uso da cama como fertilizante.

O Compost Barn, também denominado como estábulo com material em compostagem, foi desenvolvido nos Estados Unidos na década de 80 e apresenta crescente número nas propriedades leiteiras do Brasil.  Este sistema trata-se de um galpão com presença de ventiladores e uma área de descanso com cama aberta comum para todas as vacas do mesmo lote, sendo esta área separada do corredor de alimentação ou cocho por um beiral de concreto.

O sistema apresenta como objetivo principal melhorar o conforto e bem-estar dos animais, melhorando consequentemente os índices sanitários e produtivos das vacas. Isso normalmente é importante em fazendas que passam por duas circunstâncias diferentes no mesmo ano, onde no inverno tudo ocorre da melhor forma e o produtor apresenta excelentes números produtivos e econômicos, e por outro lado no verão onde na maioria das vezes aumentam-se as incidências de problemas de mastite clínica, patologias podais e retenção de placenta. Com isso, muitos produtores acabam buscando pelo confinamento em sistema Compost Barn.

 

Sistema de Compostagem

O diferencial do sistema Compost Barn é a compostagem que ocorre ao longo do tempo com o material da cama e a matéria orgânica dos dejetos dos animais. Com o processo de compostagem ocorrerá produção de dióxido de carbono (CO2), água e calor a partir da degradação dos componentes orgânicos da cama. As fezes e urina das vacas fornecem os componentes orgânicos (carbono, nitrogênio, água e microrganismos) que serão primordiais para o processo de compostagem.

O oxigênio usado no processo de compostagem é resultante do revolvimento e aeração diária que deve ser realizada na cama. Para o sucesso no processo de compostagem são necessários a manutenção de níveis adequados de oxigênio, água, temperatura, quantidade de matéria orgânica e atividade dos microrganismos, que produzem calor suficiente para secar o material e reduzir a população de microrganismos causadores de doenças, como exemplo, podemos citar a mastite clínica e as patologias podais. Para que a umidade seja controlada, a temperatura da cama deve variar de 54 a 65˚C a 30 cm da superfície da cama, ou seja, o controle da temperatura da cama é uma forma de avaliação da qualidade da compostagem.

Na prática, os dejetos produzidos pelas vacas irão ser misturados a cama, e passar por um processo natural de compostagem. A utilização do resíduo das camas, após a retirada das instalações, torna-o mais interessante e sustentável, pois o produto pode ser distribuído na área de lavoura ou vendido para produtores.

 

Instalações do Compost Barn

Assim como no sistema Free-stall, o Compost Barn também possui pista e corredor de alimentação com bebedouros. A diferença principal entre os dois sistemas é a área de descanso, sendo o sistema free-stall com camas individuais e no caso do Compost barn as camas são coletivas.

Para que ocorra melhor distribuição e conforto das vacas, a área de cama deve apresentar entre 15 a 20 m²/vaca, para que todas tenham a possibilidade de se deitar ao mesmo tempo e ainda conseguir levantar e movimentar-se em direção aos cochos e áreas de bebedouros. Apesar da área de 15 a 20 m²/vaca ser considerada o ideal, não é difícil encontrar sistemas em fazendas brasileiras onde as vacas apresentam área inferior a 10 m²/vaca. Desta forma é primordial que o projeto seja planejado com base na projeção de crescimento do rebanho e produção de leite. Sendo que a lotação animal quando superior ao preconizado poderá dificultar o controle de umidade da cama (Fávero & Pantoja, 2014).

Ainda deve haver duas saídas para a pista de alimentação de aproximadamente 4,0 m de comprimento, e divisória de 1,2 m de altura entre a cama e a área do cocho. Bebedouros devem ficar contra a parede de concreto que separa a área do corredor de compostagem do corredor de alimentação, e serem acessadas pelo corredor de alimentação (JANNI et al., 2006). Sendo que os bebedouros nunca deverão ser instalados virados para a cama, evitando assim a possibilidade de molhar a cama. Ainda em relação aos bebedouros, os mesmos deverão ser facilmente limpos e rapidamente realizada a reposição do volume de água.

O telhado deve ser de material que não retenha muito calor. Sua inclinação não deve possuir menos do que 30%, para não dificultar a circulação de ar dentro do galpão e ajudar na dissipação do calor gerado pelas vacas e pela cama no processo de compostagem, e ainda deve conter lanternim coberto para que não chova dentro da instalação molhando a cama.

Segundo Shane et al. (2010) o sistema de ventilação deve ser instalado sobre a cama para mantê-la seca e evitando que o material possa aderir aos tetos e pernas das vacas. Além de melhorar a circulação de gases da compostagem, controlando a temperatura do galpão e proporcionando conforto térmico às vacas. Além disso, há melhorias na saúde geral das vacas, pois elimina poeira e pequenas partículas, que podem ocasionar futuros problemas respiratórios. A ventilação deve ser homogênea para evitar aglomeração de animais em algumas localidades do galpão, implicando em excesso de fezes e urina em locais específicos. Aspersores na pista de alimentação auxiliam e melhoram o conforto térmico das vacas, aumentando o consumo de matéria seca.

 

 

 

 

 

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